sábado, 6 de junho de 2009

ATO II - A BORBOLETA ?




Ah...não entendeu a interrogação. Tudo bem, estou aqui para explicar. Não é que Borboleta seria o óbvio? É. Tanto para o título quanto para o corpo do texto e principalmente para a vida. Mas esta sou eu e eu não gosto de obviedades. Não nasci para elas e suspeito que a recíproca é verdadeira. O óbvio não gosta de mim. Zero a zero.


Lição número um, regra essencial e imutável: quando se é a sombra do meio dia, há que deixar uma fresta no paredão. Uma rachadura. Uma face mas fácil de ser escalada. Para propiciar que as inconveniências, os problemas, os perigos, ao menos um mínimo qualquer, ameace. Ronde. Aproxime-se. 


Por que? Nos momentos de omissão e inação, de inércia e covardia, foi muito fácil para quem gozou de toda a proteção esquecer que a rocha esteve ali. Porque o incômodo não incomodou, a rocha, a parede, o obstáculo foi tão intransponível e eficaz que ficou fácil fazer de conta que não existe problema, inconveniência, perigo. Se o perigo não ronda, o paredão pode ser ignorado, na medida que isso lhe aprouver. A sombra do meio dia, que nunca apareceu porque o brilho é seu e não dela e a sombra conhece seu papel e nele é profissional, se lhe for conveniente, é o outro lado da sombra do meio dia. Ninguém viu, ninguém vê, pode ser ignorada.


- Mas e o Escafandro, que foi feito dele?


É. Agora é o lado de dentro. A carcaça do escafandro se quebrou. Dentro, contido, aprisionado, escondido, um casulo. Escuro, fechado, inerte. 


- Muito bom! Liberta, será em breve uma Borboleta, com voo próprio. Leveza e beleza próprias!


Não. Não será. A crisálida não teve forças. Não eclodiu. Não conseguiu encontrar alimento. Não pode nem soube fazer por si. Se descobriu inútil para seu próprio bem. Se descobriu útil para seu próprio mal. Está ali, feia, grosseira, grotesca. Impávida. Imóvel.


Passa os dias sem luz, sem sol, sem oxigenio. Sem reação. Porque não é sua função ser borboleta. É ser escafandro, é ser rochedo.


Não se passa impunemente pela vida. Não existe boa ação que não receba a sua punição. A lição? Número um: rocha, sim. Burrice, não. Daqui pra frente, uma fresta será a garantia de que o paredão esteve ali. 


Tudo se encerra. Nada terá fim.

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