sábado, 13 de novembro de 2010

CAI A NOITE


"É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,
teu perfil exato e que, apenas, levemente, 
o vento das horas ponha um frêmito em teus cabelos...
É preciso que a tua ausência trescale
sutilmente, no ar, a trevo machucado,
as folhas de alecrim desde há muito guardadas
não se sabe por quem nalgum móvel antigo...
Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela
e respirar-te, azul e luminosa, no ar.
É preciso a saudade para eu sentir
como sinto - em mim - a presença misteriosa da vida...
Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista
que nunca te pareces com o teu retrato...
E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te."
(Mário Quintana)

2 comentários:

  1. marcia190713/11/10, 21:30

    uau!
    ar-ra-sou!
    foto, poema, tudo!

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  2. Assovio

    Ninguém abra a sua porta
    para ver que aconteceu:
    saímos de braço dado,
    a noite escura mais eu.

    Ela não sabe o meu rumo,
    eu não lhe pergunto o seu:
    não posso perder mais nada,
    se o que houve já se perdeu.

    Vou pelo braço da noite,
    levando tudo que é meu:
    — a dor que os homens me deram,
    e a canção que Deus me deu.

    Cecília Meireles

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