domingo, 7 de novembro de 2010

DOS CHEIROS, SABORES, SONS E CUMPLICIDADE



Aos domingos, chegávamos cedo à casa de meus avós paternos. Tinha emoção, jardim, cozinha e quintal, quatro coisas imprescindíveis a qualquer infância que se preze.

Até os 14 anos fui neta única nesse lado da família. Fácil concluir que reinei. Com limites, com valores, com princípios, com norte, com verdade, aprendi a ser a "princesa do vô". Nada disso me livrava de um belo sermão quando eu aprontava alguma! Inevitável já que éramos eu e oito meninos. Ou eu entrava no mundo das brincadeiras deles, ou ficava de lado naquela barulheira doida. Eu ia ficar de fora? Nunquinha! 

Da cozinha vinham os cheiros, os caprichos, as vontades atendidas com o cuidado e a liturgia que o preparo dos prazeres da mesa exige. Vó Marina, banqueteira de primeira linha, avental sempre impecável, dominava como ninguém a arte de fazer as refeições virarem celebrações. 

Mulher doce que, ao menor sinal de discussão ou de disputas à mesa – convenhamos, coisas quase inevitáveis quando se reúne a “netaiada” -, apenas passava os olhos para lembrar a todos nós que o momento era sagrado e só admitia alegrias. “A” matriarca. Tudo, se não vinha dela, passava por ela. Nunca a vi dar um grito com um filho e muito menos com um neto. Os olhos, brilhantes e serenos, diziam mais do que qualquer dúzia de palavras.

Na sala, o piano encostado a uma parede, já aberto, esperando pela platéia. Vô Antonio: funcionário de carreira brilhante, boêmio, compositor, talvez a pessoa mais inteligente que conheci. Tinha respostas e observações sagazes para toda e qualquer situação. A vida, para ele, era, sim, uma grande festa. Ele era, como descobri anos depois, o nosso Manual de Instruções da Vida.

Eu e meu avô tínhamos códigos, senhas. Dependendo de como ele me recebesse no portão, eu já sabia que tipo de diversão teríamos. Ao lado dele, sua fiel escudeira, a Boneca. Inteligentíssima, a cadelinha parecia saber que, junto comigo, chegavam a farra e a liberdade dos domingos.

Depois de saber o que teríamos para o almoço, lá ia eu para cima do piano. Sentada ali, pernas cruzadas, era hora de ouvir as notas que me ensinaram a gostar da boa música. 

- Vamos lá! O que a minha princesa quer ouvir primeiro?
- Toca a dos apitos, vô!

Cantávamos juntos ...”quando o apito da fábrica de tecidos vem ferir os meus ouvidos, eu me lembro de você”. Assim fui apresentada a Noel, a Pixinguinha, a Ary Barroso, a Cole Porter.

Lá pelas tantas, ele perguntava de modo que minha avó, lá da cozinha, ouvisse: “E então? Quer comer aquelas sardinhas fritas? Vamos?" Comer aquelas sardinhas fritas era a senha para que saíssemos rumo ao Bar do Seu Benedito. Ao ouvir o “Vamos?”, Boneca corria a buscar a coleira. Ela já sabia que ia junto. Minha avó, com um sorriso de quem sabia que estavam tentando enganá-la, limitava-se a dizer: "Não comam demais e nem se atrasem para o almoço!"

Lá íamos nós, a pé, cúmplices, passeando e conversando sobre coisas que livro nenhum jamais me ensinaria. Ele me ensinou a observar a vida e as pessoas com suas almas e histórias. Virou a esquina? Hora de soltar a Boneca da coleira, coisa inimaginável na presença de D.Marina! Muito rápido ensinamos à cadelinha que o preço da liberdade seria andar sempre ao nosso lado, sem travessuras. A recompensa vinha da mesa do bar.

Seu Benedito, o dono do bar, era músico e afinador de pianos. Quando saía para trabalhar, a mulher e os filhos tocavam o bar. Bêbados e desordeiros não paravam ali. Aos domingos, só famílias e amigos. Ali se faziam as melhores sardinhas fritas que já comi na vida! 

Ocupávamos uma mesinha e logo vinha a travessa de sardinhas, crocantes, deliciosas, um guaraná caçula e a cerveja geladíssima que meu vô não dispensava. Para Boneca, uns 5 ou 6 coraçõezinhos de galinha, prêmio pelo comportamento e pela lealdade. Os amigos de meu avô iam chegando, uns com filhos, outros com netos, e passávamos 1 ou 2 horas ao som de boa música e como se o mundo não existisse para além dali.

Para além dali só havia uma família nos esperando para o almoço. E todos em casa, sem exceção, sabiam que só uma neta querendo comer sardinhas fritas justificava a ausência do vô por algumas horas nas manhãs de domingo!

Esquina de casa, coleira na Boneca! Como dizia o poeta, “Batuque, é um privilégio. Ninguém aprende samba no colégio...”

(Deliciosa e perfumadamente escrito e descrito por Kika Albuquerque)

4 comentários:

  1. Post com "Cheiro de infância" e isso tem que ser resgatado sempre...

    Valeu demais Kika.

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  2. Que maravilha lembrar da minha infância através da Kika!!!! Lembrei de tudo na casa italiana, todos falando alto e gesticulando ao mesmo tempo, os aromas da nona subindo... Felicidade total.
    Parabéns, amiga, lindo texto.

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  3. Não me canso de reler, Kika.

    Saudade é a ausência das pessoas e do que vivemos com elas. Mas é a presença do amor que com elas aprendemos. E acumulamos, para suportar o resto de nossas vidas. Eh, saudade...

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  4. marcia190707/11/10, 19:25

    kika do céu! este seu texto e a foto do clooney torna qualquer domingo em um domingão!
    a-mei!

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