domingo, 14 de novembro de 2010

TOCA O TELEFONE



Na penumbra agradável, a cena acontecendo à sua frente, som dolby stereo digital 5.0 perfeitamente adequado ao silêncio das pessoas bem concentradas. De repente toca a sirene de uma ambulância. Uóuóuóuóóóó!! Estridente, claro. Todo mundo pula nas suas cadeiras. E ainda tem que ouvir o sujeito, saindo pra "atender" lá fora: "e aí, seu gay, me ligando agora, tô no cinema, pô". Perfeito, não? Alguém empresta um cinto, por favor?

Elevador lotado, de pessoas e de silêncio. Só o ruído das engrenagens do carro se faz ouvir. De repente um grito: "Ronaaaaldooo"! Todos os corações saem pela boca. Já pode jogar a cidadã (inacreditável, era uma mulher) pelo poço?

Sala de audiências no fórum. Um juiz de paz, uma escrevente, um casal e poucos íntimos na cerimonia de casamento civil. Eis que, bem alto, ouve-se um forrozão arretado: "você não vale nada mas eu gosto de você...tudo que eu queria era saber por quê." Quase não tem mais casamento, por pouco não lincharam o seu juiz. Era dele, o maldito. Já pode, Arnaldo?

No café da bookstore, durante a semana, pouca gente, conversas poucas e sussurradas, já que maioria está sozinha com uma revista ou folheando um livro. Tranquilidade e café com pães de queijo. A mãe e seus dois adolescentes que acabaram de ganhar novos aparelhos se sentam também. E começa o festival de escolha de ringtones, cada um dos meninos passa, de um por um, os sons dos seus respectivos aparelhos. No volume máximo. Dá vontade de perguntar para a mãe se os garotos já experimentaram Ritalina, dizem que é ótimo, menina!

Prazo para entrega do trabalho estourando, está difícil se concentrar, tem que terminar. Na hora em que finalmente aquela frase que faltava se ilumina em sua mente: "atende-atende-atende-o-celular-vou-te-irritar-tô-te-irritando-ateeeeeeeeeeeeeeeende-atende-atende-atende-o-celular”. E segue gritando, na estação de trabalho ao lado, berrando sozinho, já que a dona foi sabe-se lá aonde, fazer sabe-se lá o quê. Ainda bem que demorou a voltar, senão teria perdido os cabelos. Mas sempre é possível colocar o aparelho num saquinho zip e mandá-lo nadar com os peixes. 

Balcão da lanchonete fast food, aquela, do arco amarelinho.  Noite de domingo, cheio de gente. Adolescentes e crianças então, é o que mais tem. Barulho, arruaça, risadas, correria, uma diversão só. Nada relativo a um celular incomoda num local como esse, certo? Errado. Um tempão na fila para fazer o pedido, na sua frente um homem e seu filho de uns 6, 7 anos. Ninguém nota o celular tocar. Ufa, enfim um moço com educação, vibracall, você pensa. 

Bom demais pra ser verdade: "escuta aqui, sua bruxa filha de uma £#¢@ vou levar o moleque na hora que eu quiser vá se fo#$& sua pir@$* o filho é meu também." Desliga e fala pra atendente, na maior compostura e com cara de paisagem: "Me dá a promoção do número 5 e o sacolinha com nuggetts, por favor? E guaraná light." Ah, sim,  e a criança junto, ouvindo tudo. Ela e mais oitenta pessoas. Pena que nenhuma do conselho tutelar.

E quando você pensar que vai morrer sem ouvir de tudo nessa vida, ainda há de se sentar ao lado de alguém que usa como aviso de recebimento de SMS uma voz de alto falante de carro de som: "olha a pamonha, quem olhou é pamonha!"

Se sentiu em casa com alguma dessas cenas? Sorria, você não está sozinho. Parece que somos todos vítimas de um complô da falta de educação, bons modos e civilidade nas relações entre os seres humanos e seus gadgets maravilhosos.
(o aparelho antigo é para lembrar do tempo em que telefone era luxo, e não incômodo)

7 comentários:

  1. Ah,Velvet, que delícia de Post!
    Tão verdadeiro...

    Mas, vamos e venhamos,melhor assim!

    Já pensou se voltássemos há um certo tempo, em que telefone era só p/mto ricos,e, para fazer uma ligação interurbana era passar por um longo período no purgatório?

    Qto aos berros em elevador,lanchonete,escolas,etc, só podemos dizer a nós mesmas que, apesar dos pezares, ...não estamos surdas...ainda! rsrs

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  2. Verdade, Zinha. Mas os aparelhos tem vibracall. Podem tocar silenciosamente... hehehe.

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  3. Amiga, quase desmonto de rir com o texto tão bom!
    Outro dia fui ao cinema e havia um sujeito na minha diagonal com um troço azul no ouvido ofuscando o filme de tal forma, que fui lá pedir para desligar o tal blue...
    Mas confesso que o toque da filha para ligações do pai é a 5ª de Beethoven e que quando ouço aquele tcham tcham tcham tcham, quero morrer e nem é pelo barulho.
    Estou me acabando de rir.

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  4. Isto só vai durar até o novo regime "desprivatizar" as telecomunições; voltaremos ao sistema pré-histórico. Soviético.

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  5. Blues, confissão: eu tenho o toque de Psicose. Preciso te contar para qual número ele toca? Não, né?! Hehehe

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  6. Em parte, somos o que demonstramos ser. Ora como "incoveniente", já que por vezes, agimos com pouca (ou nenhuma) delicadeza (respeito) ao próximo (seja por causa do toque polifônico no mais alto volume, seja pelo esbravejo retumbante ao telefone - sem contar as expressões de baixo calão que são ditas ou devido ao cerceio à liberdade, silêncio e tantas outras coisas ao próximo); ora como "intransigente", já que não toleramos (ou não queremos tolerar) os abusos alheios, ainda que "extrapolem" do nosso espaço ou liberdade.
    Em outras palavras, se tem nos faltado a boa educação que nos impede de perceber o nosso extrapolar (ainda que acidental ou repentino), nos falta ainda mais a tolerância.
    Fato é: desrespeito e/ou intolerância é sempre mal vista, mal quista e indesejada. E com toda razão!

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  7. Cena- Um velório complicado, o marido havia falecido fulminado por um enfarto, longe de casa (na verdade estava num termas com um amigo, o padrinho do casal)
    Choradeira geral, afinal o falecido era um bonachão querido por todos.
    Eis que toca o celular do padrinho em alto e bom tom ;
    -São As Cachorras ! São As Cachorras ! São As Cachorras !
    O padrinho, nervoso, atende e por erro aperta o "viva-voz"
    Voz feminina estridente - Ai tio, cadê voces ? O Sitio tá bombando, cheio das mina gostosas, só falta voce e o Valdemar (o falecido) !
    Vem logo, as "cachorras" tão nervosas. E uma risada audível antes do padrinho desligar !

    Cena II - Centro Cirurgico, cirurgia complicadíssima, a equipe já tinha brigado com o anestesista que não queria fazer anestesia no paciente. No decorrer da cirurgia delicada, o paciente tinha "parado" duas vezes.
    No momento mais crítico da cirurgia, concentração máxima, os cirurgões suando em bicas e ei que toca o celular do anestesista;
    -Ele é viado mas é meu amigo !
    -Ele é baitola mas é meu amigo...
    na voz nortista mais carregada impossivel.
    Desnecessário dizer que a cirurgia demorou mais 3 horas....

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