quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

CAI A NOITE


"Quando é mais penoso compreender tudo,
tomar consciência de todas as impossibilidades,
de todos os muros de pedra;
porém não se humilhar diante de nenhuma dessas impossibilidades,
diante de nenhuma dessas muralhas se isso te repugna,
chegar, seguindo as deduções lógicas mais inelutáveis, às conclusões mais desesperadoras,
no tocante a esse tema eterno de tua parte de responsabilidade nessa muralha de pedra,
se bem que esteja claro até a evidência que tu não estás aqui para nada,
e em conseqüência mergulhares silenciosamente,
mas rangendo deliciosamente os dentes, na tua inércia,
pensando que não podes mesmo te revoltar contra seja o que for,
porque não há ninguém em suma, porque isto não é senão uma farsa, senão uma falcatrua,
porque é uma trapalhada, não se sabe o quê nem se sabe quem,
porém que, malgrado todas essas velhacadas, malgrado essa ignorância,
tu sofres, e tanto mais quanto menos compreendes"
(Dostoiévski)

1 comentário:

  1. Querida Velvet. Maravilhoso!

    "Esse tema eterno de tua parte de responsabilidade nessa muralha de pedra" - é nauseante mesmo como que milhares fogem às responsabilidades nessa muralha de pedra. Mas será cobrado, acreditemos ou não, de todos nós, a inércia dessa nossa incompreensão. Fugimos de pensar, porque cremos que isso dói; todavia, maior ainda é a dor de não se querer compreender, por se crer que é penoso o trabalho de pensar.

    Estou terminando de ler "O Jogador", livro que ainda não havia lido de Dostoiévski. Um retrato exasperador do vício que come a alma humana.

    Abraços senpre afetuosos.

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