quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

CAI A NOITE



Espanta-me, em verdade, o que fizemos, tu e eu
Até nos amarmos? Não estaríamos ainda criados,
E, infantilmente, sorvíamos rústicos prazeres?
Ou ressonávamos na cova dos Sete Santos Adormecidos?
Se alguma vez beleza eu de fato vi,
Desejei e obtive, não foi se não um sonho de ti.

E agora, bom dia às nossas almas que acordam
E que, por medo, uma à outra se não contemplam;
Porque Amor todo o amor de outras visões influencia
E transforma um pequeno quarto numa imensidão.
Deixa que os descobridores partam para novos mundos,
E que aos outros os mapa-mundos sobre mundos mostrem.
Tenhamos nós um só, porque cada um possui, e é um mundo.
(John Donne)

3 comentários:

  1. Velvet, os versos abaixo são também do mesmo pastor inglês, John Donne, e necessitam de leitura reverente. Veja, belíssimo!

    (talvez extenso para uma seção de comentário, mas não poderia furtar de ti o prazer dessa leitura completa).

    Elegia – Indo para o leito

    Vem, Dama, vem que eu desafio a paz;
    Até que eu lute, em luta o corpo jaz.
    Como o inimigo diante do inimigo,
    Canso-me de esperar se nunca brigo.
    Solta esse cinto sideral que vela,
    Céu cintilante, uma área ainda mais bela.
    Desata esse corpete constelado,
    Feito para deter o olhar ousado.
    Entrega-te ao torpor que se derrama
    De ti a mim, dizendo: hora da cama.
    Tira o espartilho, quero descoberto
    O que ele guarda quieto, tão de perto.
    O corpo que de tuas saias sai
    É um campo em flor quando a sombra se esvai.
    Arranca essa grinalda armada e deixa
    Que cresça o diadema da madeixa.
    Tira os sapatos e entra sem receio
    Nesse templo de amor que é o nosso leito.
    Os anjos mostram-se num branco véu
    Aos homens. Tu, meu anjo, és como o Céu
    De Maomé. E se no branco têm contigo
    Semelhança os espíritos, distingo:
    O que o meu Anjo branco põe não é
    O cabelo mas sim a carne em pé.

    Deixa que minha mão errante adentre.
    Atrás, na frente, em cima, em baixo, entre.
    Minha América! Minha terra à vista,
    Reino de paz, se um homem só a conquista,
    Minha Mina preciosa, meu império,
    Feliz de quem penetre o teu mistério!
    Liberto-me ficando teu escravo;
    Onde cai minha mão, meu selo gravo.

    Nudez total! Todo o prazer provém
    De um corpo (como a alma sem corpo) sem
    Vestes. As jóias que a mulher ostenta
    São como as bolas de ouro de Atlanta:
    O olho do tolo que uma gema inflama
    Ilude-se com ela e perde a dama.
    Como encadernação vistosa, feita
    Para iletrados a mulher se enfeita;
    Mas ela é um livro místico e somente

    A alguns (a que tal graça se consente)
    É dado lê-la. Eu sou um que sabe;
    Como se diante da parteira, abre-
    Te: atira, sim, o linho branco fora,
    Nem penitência nem decência agora.

    Para ensinar-te eu me desnudo antes:
    A coberta de um homem te é bastante.

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  2. Gente, eu ia publicar esses versos aí acima! Resolvi deixar para outra hora...

    São lindos!

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  3. mas estes foram muito bem escolhidos, Regina. Parabéns!

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