sábado, 29 de janeiro de 2011

CAI A NOITE


Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada, a minha aldeia estava morta. 
Não se via ou ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas. 
Eu estava saindo de uma festa,
Eram quase quatro da manhã. Ia o silêncio pela rua carregando um bêbado. 
Preparei minha máquina. O silêncio era um carregador?
Estava carregando o bêbado. Fotografei esse carregador.
Tive outras visões naquela madrugada. Preparei minha máquina de novo. 
Tinha um perfume de jasmim no beiral do sobrado. Fotografei o perfume. 
Vi uma lesma pregada na existência mais do que na pedra.
Fotografei a existência dela.
Vi ainda um azul-perdão no olho de um mendigo. Fotografei o perdão. 
Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa. Fotografei o sobre.
Foi difícil fotografar o sobre. Por fim eu enxerguei a nuvem de calça.
Representou pra mim que ela andava na aldeia de braços com Maiakoviski – seu criador. 
Fotografei a nuvem de calça e o poeta. Nenhum outro poeta no mundo faria uma roupa
Mais justa para cobrir sua noiva.
A foto saiu legal.
(Manoel de Barros)

2 comentários:

  1. Que linda poesia,Rê!
    Amei! Acho que vou copiá-la tb;
    o nome do inspirado autor está aí; só falta o nome da própria!é mesmo "Fotografei o silêncio"?

    Bjocas p/ vc!

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  2. Que idéia sublime. Quantos de nós já não brincaram com o silêncio...

    Esse texto levou-me muito longe, quando eu caminhava lá nas madrugadas de Belo Horizonte. Havia naqueles silêncios um cheiro que me encantava: a dama-da-noite! E eu seguia pelas ruas, sustentado pelos silêncios noturnos e embriagado do cheiro dessa flor que se espalhava pelas ruas...

    Bom demais, sô!

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