domingo, 30 de janeiro de 2011

CAI A NOITE



Desejo dar uma volta por aquelas altas e áridas cordilheiras de montanhas 
onde se morre de sede e frio, por aquela história "extratemporal", 
aquele absoluto de tempo e espaço 
onde não existe homem, nem fera, nem vegetação, 
onde se fica louco de solidão, com linguagem que é de meras palavras, 
onde tudo é desengachado, desengrenado, sem articulação com os tempos.

Desejo um mundo de homens e mulheres, de árvores que não falem 
(porque já existe conversa demais no mundo!) 
de rios que levem a gente a lugares, não rios que sejam lendas, mas rios que ponham a gente em contato com outros homens e mulheres, 
com arquitetura, religião, plantas, animais.
Rios que tenham barcos e nos quais os homens se afoguem, 
mas não se afoguem no mito e lenda e nos livros e poeira do passado, 
mas no tempo e no espaço e na história. 

Desejo rios que façam oceanos como Shakespeare e Dante, 
rios que não se sequem no vazio do passado. 

Tenhamos um mundo de homens e mulheres com dínamos entre as pernas, 
um mundo de fúria natural, de paixão, ação, drama, sonhos, loucura, 
um mundo que produza extâse e não peidos secos. 
Creio hoje mais do que nunca é preciso procurar um livro 
ainda que de uma só grande página: 
precisamos procurar fragmentos, lascas, unhas dos dedos dos pés, 
tudo quanto contenha minério, 
tudo quanto seja capaz de ressuscitar o corpo e a alma.

(Henry Miller)

1 comentário:

  1. Li Os Trópicos de Miller cedo demais, imatura de todo e custei a entender que ele também fazia poesia...

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