quinta-feira, 4 de outubro de 2012

EU SOU INÚTIL



*Reedição, publicado em 01/2011

A certeza de saber algo não serve ao coletivo. A certeza serve sempre ao indivíduo. Somos úteis quando somos seres carregados da certeza de que somos incapazes de saber, enquanto achamos lindo o pensamento "só sei que nada sei".  

Somos úteis quando nos alimentamos do impossível. Desde que o impossível não seja crença absoluta em nós mesmos. A fé deve ser sempre no imponderável que jamais se realiza, pois assim deixamos de criar, de executar. Somos úteis se carregamos enormes sentimentos de culpa, que precisam ser expurgados sempre a favor de alguma causa coletiva.

Somos úteis se não descobrimos qual a extensão das nossas reais capacidades. Somos úteis se não temos consciência sequer de quais são as nossas limitações, as nossas incapacidades. Se aceitamos a inconsciência coletiva de que todos somos iguais, sem distinção e temos todos as mesmas falhas inerentes aos seres humanos, principalmente as piores delas, defendidas por bandidos. Se pensamos que todos somos participantes mínimos, totalmente insignificantes diante da grandeza de algo superior à nossa inteligência, somos úteis.

Somos úteis se temos a fé que não questiona. Somos atingidos pela linguagem tortuosa, palavras feitas de látex, moldáveis. Significado de borracha, que você estica ou aperta, para caber em qualquer lugar. Se engrossamos o coro que recita os termos flutuantes, pois assim evita-se reconhecer o conceito de pensamento. Somos úteis se sorvemos o pensamento par, nunca o ímpar.

Inteligência é insolência, e como tal, não é bem-vinda. Porque ela tem o poder de mudar o silêncio. Liberdade para falar? Liberdade para pensar? Pensar e expressar o livre pensar incomoda, afasta, choca. Parar de questionar é render sua consciência, e isso é entregar sua vida, mas é ser útil.

Eu sou inútil. É muita ousadia!

6 comentários:

  1. Não quero comentar a sua mensagem do Post, pq ainda não consegui digerí-la corretamente...

    Talvez eu volte mais tarde p/ fazê-lo...

    Mas uma coisa posso falar de boca cheia: Que linda imagem! Amei!
    É foto? Parece uma pintura de Aquarela,não é? Linda linda!

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  2. "Não se render". Amiga, só vou me render quando estiver no forno crematório. Vão ter que nos aturar.

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  3. É uma ilustração, Zinha, que trabalhei com um leve envelhecimento. Velvetices...rsrs

    Qualquer hora aprendo pra valer as técnicas de trabalhar imagens. Principalmente fotografia, que gosto tanto. Aí monto uma exposição aqui! hehehe

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  4. marcia190716/01/11, 20:16

    pois é, chegamos a um ponto tão crítico que ousar questionar vira questão política!

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  5. Voltei p/ ler novamente seu Post tão questionador...
    Sabe, vc é a 2ªpessoa c/ quem me relaciono (mesmo de longe) que faz este mesmo questionamento.

    É proibido pensar? Não se pode mostrar ser uma pessoa inteligente?É proibido fazer perguntas? cobranças? discordar?

    Temos que fingir que nada somos,nada entendemos,para sermos "aceitos" e "benvindos" nesse mundinho tão pequeno, ou melhor, de cabeças tão pequenas?

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  6. Gostei, imensamente, de sua fala! Com a sua permissão, recolho e guardo, para mais tarde alimentar, ainda mais, a minha imprescindível inutilidade! Um texto para alicerçar necessárias reflexões cotidianas, numa cidadania tão reclamada, mas tão combalida.

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