domingo, 23 de janeiro de 2011

LIÇÕES NOTURNAS DA DEMOCRACIA


Segunda-feira passada começou o Piers Morgan Tonight na CNN. Apesar do horário ingrato, meia-noite, a curiosidade sobre como se sairia um jornalista britânico substituindo o ícone da televisão americana Larry King, foi mais forte. Pois bem, durante cinco dias, Piers e seus convidados me mostraram como é viver em uma democracia. E, o interessante é que  ela estava presente em todas as entrevistas, mas sequer foi citada...

"Não é o meu trabalho me preocupar com o que as pessoas pensarão de mim. Isso é trabalho para os políticos" disparou, logo no primeiro programa, o comediante britânico Ricky Jervais. Eu ri de nervoso, enquanto ele jurava que não quis ofender ninguém com suas brincadeiras no Golden Globe. Como gostei do estilo de Piers, resolvi que toda noite antes de desligar a tv irei ao longínquo 153 (por que os canais de noticiário internacional são jogados lá para cima?) bisbilhotar quem será o entrevistado.

E na quarta-feira era ninguém mais ninguém menos do que Condoleezza Rice. Durante uma hora ela falou sobre os conturbados anos Bush, defendeu a invasão ao Iraque e disse estar satisfeita com o governo Obama. A ex-mulher mais poderosa do mundo voltou a dar aulas na Universidade de Los Angeles e quando perguntada que momento dos seus quatro anos de governo ela gostaria de reviver, a mulher que visitou palácios e conversou com quase todas as figuras importantes da atualidade , simplesmente respondeu: “quando acompanhei Yo-Yo-Ma no piano”.O músico é considerado um dos maiores violoncelista da história. Anteriormente ela já havia contado que era uma pianista frustrada.

E a semana teve um fecho de ouro: George Clooney (não ria, Velvet, juro que o elogio é para a entrevista). O ator foi falar sobre seu envolvimento com o Sudão, para onde havia ido acompanhar o plebiscito que poderá dividir o país em dois. Esta separação acabaria com as atrocidades contra minorias religiosas, e com uma das maiores vergonhas da atualidade: o campo de refugiados de Darfur. Cloneey afirmou que foi para o Sudão por que sabia que poderia fazer a diferença. Ele contou ter visto crianças portando um Kalashnikov (fuzil HK-47), “ ninguém pode ficar insensível a isto”. Quase no final da entrevista quando perguntado sobre paparazzi ele disse: “Eu entendo que é o trabalho deles. Agora uma coisa é eu cair e ele me fotografar, outra é ele colocar algo no meu caminho para eu cair e ele ter a primeira página do jornal. Imprensa, para mim, deve dar informação e, não criá-la”.

Um país em que a regra é os políticos se preocuparem com o que os eleitores pensam deles, em que uma ex-Secretária de Estado volta a dar aulas para sobreviver e um ator de reconhecimento mundial atravessa o atlântico por acreditar na expressão “to make a difference” é um local em que a democracia faz parte do cotidiano. De semelhante apenas o lamentável fato de que aqui também, "às vezes” a imprensa cria fatos e esquece de informar o que realmente importa.

Artigo de Mirtes Guimarães, a @Marcia1907, jornalista carioca nascida em Minas Gerais.

9 comentários:

  1. Para deleite da Marcinha, não havia a menor hipótese de eu escolher uma foto da Condoleeza, hehehehe.

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  2. Depois vocês ficam falando de democracia...Já censuraram a foto da Condy, que eu acho ma tetéia com aqueles dentinhos!!!!

    Mas vá lá, continuemos.
    A certeza de que ocupar um cargo de destaque na administração pública nada mais é que um reconhecimento temporário de que se pode fazer um pouco pelo país em que se está; e que o administrador maior deposita em você a confiança que ganhou dos eleitores, faz com que essas coisas aconteçam por aí afora e não em plagas tupiniquins.
    Nossos sinistros se arvoram de suas posições para encherem suas burrinhas e fazer todo tipo de falcatruas conhecidas, agregando sempre novas "tecnologias".
    Grande texto. Link lá nas Dicas de Tupã da Tribo dos Manaós.

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  3. marcia190723/01/11, 16:32

    engraçado que você usou outras palavras para dizer o mesmo que disse o clooney quando o piers perguntou por que ele não aceita que se lance seu nome para presidente:
    "eu não saberia servir ao país". e a condoleezza também falou algo semelhante: "eu adorei servi meu país e procurei contribuir".

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  4. Bem, eu posso me orgulhar em dizer que ASSISTI a dita entrevista JUNTO com a minha 'prima do coração'. Lógico que ela no RJ e eu em Belém, mas juntas no twitter.
    Dito isso, a coisa que mais me impressiona em PESSOAS POLÍTICAS - e não PARTIDARISTAS - é a personalização de uma das frases mais perfeitas que conheço:
    ° A grandeza não consiste em receber honras, mas em merecê-las ° [Aristóteles]
    É isso. O verdadeiro SERVIDOR PÚBLICO sabe bem a diferença entre SER PARTE e TER PARTE.
    Adorei o texto, Mirtes!
    Parabéns ao Blog!

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  5. A tristeza aqui é que estão tentando o extremo de tentar recriar a realidade, pintando com tintas suaves.

    Isso me assusta e muito. Para mim imprensa é bastião da verdade. Se ela não faz seu papel sobrarão os hackers, que vazaram a realidade aqui e ali

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  6. Maninha,Formiguinha mineira!

    Seu texto está delicioso!Como é bom ler um texto assim tão claro, fazendo uma narrativa brilhante de um programa que não tivemos oportunidade de assistir!(c/excessões,claro)

    Realmente, Democracia c/ D maiúsculo não se encontra em qualquer lugar! Falam tanto mal dos USA, mas na verdade, acho que é inveja, pois lá pratica-se sim a Democracia!

    E infelizmente, aqui, na República das Bananas,uns e outros enchem a boca p/ falar q é uma república democrática, fechando os olhos para a verdadeira ditadura petralha em que estamos vivendo...

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  7. Jorge Atakardiac24/01/11, 12:53

    Bela sacada D. Mirtes!

    Vc garimpou esses simples fatos normais de uma democracia, que para nós parecem extraordinários. Uma ex-poderosa que volta a dar aulas e um hiperstar que pousa no Sudão.

    Pode ter mil defeitos, mas ainda não inventaram nada melhor que a democracia.

    Essa vc teclou com o coração nas pontas dos dedos.

    Obrigado.

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  8. Fiz um comentário mas acho que não digitei as letras. O que quis dizer, é que a democracia americana, tão mal falada pelas esquerdas desse bas fond em que vivemos, me causa profunda inveja. Quisera viver lá, usufruindo das benesses democratas que o cidadão americano é beneficiado. Parabéns, amiga, belo texto.

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