segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

CAI A NOITE



"Magoa-me a saudade
do sobressalto dos corpos
ferindo-se de ternura
sói-me a distante lembrança
do teu vestido
caindo aos nossos pés

Magoa-me a saudade
do tempo em que te habitava
como o sal ocupa o mar
como a luz recolhendo-se
nas pupilas desatentas

Seja eu de novo a tua sombra, teu desejo,
tua noite sem remédio
tua virtude, tua carência
eu que longe de ti sou fraco
eu que já fui água, seiva vegetal
sou agora gota trêmula, raiz exposta

Traz de novo, o meu amor,
a transparência da água
dá ocupação à minha ternura vadia
mergulha os teus dedos
no feitiço do meu peito
e espanta na gruta funda de mim
os animais que atormentam o meu sono."

(Mia Couto)

1 comentário:

  1. Que poema lindo, amiga. Ouço-o de diversas formas todas as semanas, vindas daquele que foi o amor da minha vida, o Nash. Um dia, vem sob forma de música, outro de poema, outro de textos sobre almas gêmeas... Mas o único gesto que ele podia fazer, não fez: caminhar até o psiquiatra. E lá se foi a história de uma vida, por mero preconceito.

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