sábado, 5 de fevereiro de 2011

VINTAGE PORT

Na avaliação do que o mercado nos oferece, deixei para o final (da série sobre vinhos) o que pessoalmente considero o mais importante. Ainda haverá uma sessão sobre os “outros” mas considero fundamental escrever sobre o Vinho do Porto. E escrevo com as mãos trêmulas devido à importância do assunto e, claro, preferência pessoal. 
(Lunarscape, expert em vinhos e músico, que é médico 
por alguma inconsistência do destino).




Produzido nas margens do Rio Douro a partir de Vila Nova de Gaia, subúrbio de Oporto, o Porto não é um vinho natural “per si”, é um produto elaborado para agradar a aristocracia e a classe média inglesas. A uva usada para esse néctar dos Deuses é a Touriga Nacional. Só existe vinho do Porto produzido ao longo do Rio Douro. As variações do Porto são Port, Tawny, Ruby, Branco e Vintage.

O Porto Vintage é determinado pela associação do Gremio Exportador de Vinho do Porto e se baseia no numero de dias/sol a qual a uva foi exposta. Outro parâmetro é a data da colheita. O mosto é provado e ai se determina o potencial daquela safra. Vale para todas as Quintas da região.

Lá por 1.730, mercadores ingleses descobriram um vinho tinto com características diferentes que poderiam abastecer o mercado inglês e pressionar os franceses a baixar os preços do produto deles. Porém havia o problema da distância de Oporto para Londres e não raramente, o vinho chegava em Londres avinagrado pelo chacoalho excessivo do Mar de Biscaya. Assim, começaram a “traçar” o tal vinho ordinário de baixo custo com aguardente (Brandy). Isso aumentava o teor de álcool do Vinho para 21%, congelava-se a fermentação e o vinho era preservado durante o transporte. 

Para dar sabor, adicionavam fruto de sabugosa e algumas especiarias das Índias. O produto era armazenado em barris de carvalho (pipas) e levado para Londres. Boa parte era vendida de imediato e consumido e, claro, os mais “espertos” guardavam parte do produto por alguns anos, em barris menores.

Ao abrir um barril daqueles, descobriram que o vinho tinha maturado e melhorado tremendamente com o descanso. Adocicado e encorpado e com 21% de álcool, rapidinho, literalmente, viciou um povo inteiro. Sim, os Ingleses são viciados em Porto, e não é à toa.

Foi necessário o Barão de Forrester lançar campanha para purificar o Porto, lá por 1.830, e frear a mistureba excessiva, coibindo os abusos de alguns produtores. Unificou-se o método de produção e esse método não foi mais alterado desde então.

O Vintage é uma safra “boa” para “excepcional” e pode ser a união de safras do mesmo ano de diversas Quintas. São engarrafados em Oporto e armazenados nunca menos que três anos para a maturação. Pode acontecer de uma safra sair da Quinta e ser “manipulada” em Oporto sem ser engarrafada de imediato: guardam o produto para maturar em barris, por cinco, dez ou até vinte anos (Late Bottled Vintage Port). O problema é deixar tanto capital empatado e guardado. Até pela demanda do mercado de hoje, nem os três anos de maturação é respeitado mais.

Era comum a aristocracia inglesa comprar uma caixa de Porto Vintage para um filho que acabara de nascer. Essa caixa era entregue no 21º aniversário do rapaz e obviamente degustado em família. Os vinte anos de descanso tornava o produto excepcional.

Quem estuda Vinho do Porto Vintage sabe que há uma lista de anos considerados “Vintage”. Não vou cansar vocês com essa lista longa, mas interessantíssima, quero apenas mencionar que o primeiro ano Vintage foi o de 1775. Não tenho relato de alguém que tenha uma garrafa dessas! 

Abro um espaço para o 1960 por a maioria das casas considerarem essa safra a melhor de todos os tempos! E é! Também foi uma das maiores safras. Assim temos ainda, no mercado, a disponibilidade dele. Sai por módicos 600 reais uma garrafa dessas, dependendo da Quinta. (Confesso que as minhas casas preferidas são Graham, Niepoort, Quinta do Noval, Kroft, Taylor, Burmeister e Dow. Falo isso porque fui criado com o paladar dessas casas e aqui dificilmente mudaria alguma coisa.)

Como eu disse, o Graham Port Vintage 1960 sai por algo em torno de 600 Reais, e para mim vale cada centavo. Mas tem Vintages 1960 que saem por algo em torno de 300 Reais, é só pesquisar. Para terem uma idéia, o Quinta do Noval 1963 hoje custa 5.000 euros! Sim, é isso mesmo.

Alguem achou um lote de Burmeister 1890 (bebível) e vende a garrafa a 1000 Euros! Estes achados, normalmente, são fruto de espólios de um idoso colecionador e acreditem, tem alguns “tesouros” ainda a serem descobertos. Isso movimenta, em muito, as famosas Casas de Leilões pelo mundo afora.

Na Victoriana Inglaterra havia 3 regras fundamentais para servir o Porto: 1) A garrafa só era aberta depois das senhoras se retirarem da mesa. 2) Era servido no sentido da trajetória do sol, de Leste ao Oeste. 3) Não se fumava ANTES do primeio copo! 

(Observação minha: Os caras sabiam do estrago que o Porto fazia nas “senhoras” embriagadas! Ainda bem que hoje não tem mais isso.)

Para os Vintage mais antigos, é aconselhável decantar o conteúdo da garrafa, com mão firme se possível e sempre evitar de sacudir a garrafa. Há um deposito de grumos no fundo da garrafa que não convem ir para a taça.


3 comentários:

  1. marcia190705/02/11, 17:57

    uau, sempre gostei do vinho do porto,mas não sabia q os ingleses também adoravam
    se não fosse o calor, até que iria dar uma bicada...

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  2. Pois é Marcia, na inglaterra tem até a expressão "Red Nose". Refere-se aos que excessivamente "provam" o bouquet daquele nectar.

    Pessoalmente, para o consumo proprio, compro um Port Dow ali na Zona Sul do Recreio (na faixa dos 50 R$) e deixo na geladeirinha propria á 15 Graus.

    Na ultima foto, bem á direita tem um Quinta do Noval 67, que já provei e te falo....é inesquecível.


    Lunar

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  3. Também achei incrível a história dos ingleses com o vinho do Porto. Não sabia. Esses ingleses são the best!

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