sábado, 30 de abril de 2011

CAI A NOITE

Apenas as palavras quebram o silêncio, 
todos os outros sons cessaram. 
Se eu estivesse silencioso, não ouviria nada. 
Mas se eu me mantivesse silencioso, 
os outros sons recomeçariam
aqueles a que as palavras me tornaram surdo
ou que realmente cessaram. 
Mas estou silencioso, por vezes acontece
não, nunca, nem um segundo. 
Também choro sem interrupção. 
É um fluxo incessante de palavras e lágrimas. 
Sem pausa para reflexão. 
Mas falo mais baixo, 
cada ano um pouco mais baixo. Talvez. 
Também mais lentamente, 
cada ano um pouco mais lentamente. Talvez. 
É-me difícil avaliar. 
Se assim fosse, as pausas seriam mais longas
entre as palavras, as frases, as sílabas, 
as lágrimas, confundo-as, palavras e lágrimas, 
as minhas palavras são as minhas lágrimas, 
os meus olhos a minha boca. 
E eu deveria ouvir, em cada pequena pausa 
se é o silêncio que eu digo quando digo 
que apenas as palavras o quebram. 
Mas nada disso, não é assim que acontece, 
é sempre o mesmo murmúrio, fluindo ininterruptamente, 
como uma única palavra infindável 
e, por isso, sem significado
porque é o fim que confere o significado às palavras. 
(Samuel Beckett)

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