segunda-feira, 3 de junho de 2013

BEAUTIFUL PEOPLE E A ESQUERDA CIDADÃ


Cidadania:
Conjunto dos direitos civis, políticos e sociais dos cidadãos, ou 
dos mecanismos para o estabelecimento e garantia desses direitos.   
Exercício consciente da condição de cidadão. (Caldas Aulete)

Este texto foi publicado originalmente há pouco mais de dois anos. De lá para cá, a cada dia que passa, a sensação de cidadãos de terceira classe criada pelo marketing do comportamento que exige direitos sem contrapartida de deveres só aumenta. Leia, ou releia. E comente.


Em 2002, foi criada na Dinamarca uma rede social chamada Beautiful People bem a la Vinicius de Morais, onde a "beleza é fundamental". Ela é exclusiva para, conforme diz o nome, pessoas bonitas. Não tolera ninguém fora do padrão de beleza estabelecido pela linha editorial. A rede se considera altamente democrática porque, apesar da regra, o cadastro é livre a qualquer um, gratuito e o julgamento do nível de beleza do candidato é feito por meio de eleição entre os membros já aceitos. Segundo a teoria de que, havendo eleição, há democracia, então tudo está, para eles, perfeito. Claro que com esses critérios e sua aplicação rigorosa, a rede causou polêmica por onde passou, pela exclusão do ugly people. Ela se espalhou pela Europa e até o ano passado, atendia a 18 países. O site já possui versão em português e agora pretende ser mundial. 

Nestepaiz demencial que se erige no lugar do Brasil, há uma rede social não formalizada que se assemelha, em conceito, à das pessoas bonitas citada acima. Apesar de não ter como critério a aparência física [hum....até parece ter, no sentido oposto, ugly, e desnecessário maiores explicações], forja o rigoroso controle do marketing do comportamento esquerdistamente perfeito. Utiliza a ditadura da novilíngua politicamente correta para teorizar sobre defesa da cidadania, porém, estabelece como regra para seu exercício, pensar e agir exclusivamente nos moldes dos interesses pregados por sua ideologia

Essa ditadura de padrão de comportamento restringe o direito à cidadania apenas aos aprovados por seu rigoroso controle de qualidade doutrinário. Evidentemente, assim como a rede Beautiful People, age em nome de uma democracia, cujo sobrenome, nestepaiz, é "quem manda sou eu". Promove patrulhamento e perseguição de todo modo de pensar diferente do seu, e, pior, tenta cassar o direito de expressá-lo. Está presente em todos os lugares: escolas, universidades (oh), entidades de classe, civis e da República. E nela, na imprensa... Já detentores do monopólio do exercício da cidadania, esse grupo usufrui dele conforme lhe convém, ao determinar como regra a exclusão e condenação sumária dos diferentes.  

Está criada a classe do "não-cidadão", que não tem direito nem à expressão de seu próprio pensar. Não obstante, tem função obrigatória dentro da engrenagem da ditadura do marketing corretamente comportado. Na condição de impostuinte, pois é sempre o pagador de impostos quem ousa questionar algo no Brasil, recolhe para os cofres do estado todos os recursos que são usados pelo desgoverno para financiar, através de repasses, as diversas associações, ONGs e entidades do próprio governo, que colocam sua militância nas ruas, diária e noturnamente, para vigiar a liberdade de pensamento e de expressão do não-cidadão. Esses militantes formam a Polícia do Pensamento, de notável inspiração na Stasi. A opinião do não-cidadão não é tolerada, é proibida, sob pena de ser proclamado preconceituoso e incentivador da discriminação. Oi? Entretanto, o dinheiro pago como imposto, tirado do fruto de seu trabalho adquirido por sua capacidade, não sofre qualquer tipo de rejeição pelo grupo. Dinheiro não tem ideologia, tem poder

E então está formado um ciclo: o não-cidadão torna-se vítima de discriminação e preconceito, pela ação da rede mantida sob o pretexto da legítima defesa de seus (dela) direitos. É atacado publicamente, sofre constrangimento moral, seus valores são classificados como errados, ultrapassados, não-progressistas, pela nova ordem social. A classe de não-cidadãos é obrigada ao silêncio. É o ugly people.

A outra parte dessa estranha sociedade é a massa de não-pensantes, que aceita, sem questionar, a implantação desse sistema totalitário escondido em palavras de efeito que remetem ao bom-mocismo, ao bem comum, à felicidade da coletividade. É convencida de que não fica nada bem dizer o contrário e acaba colaborando, pelo autoengano, a vigiar o não-cidadão, para que este não saia da linha. Por óbvio, tudo é feito sob a tutela do estado, que garante o financiamento necessário para realimentar esse ciclo, principalmente através de gasto pesado com propaganda nas redes de rádio, TV, jornal, portais da internet, etc. Parece confuso, e é. Ao ponto de que poucos são capazes ou têm disposição para fazer esta distinção. 

O caráter de um povo é uma das vertentes que formam o conceito de Nação, que, por sua vez, personifica esse caráter e representa o seu povo. Uma das formas mais nobres e raras de manifestação de caráter é a moral. A moral é raiz essencial da ética. A ética é o conjunto de valores que estabelece as relações de convivência em sociedade. As relações sociais fortalecem a Democracia. A Democracia garante a igualdade de direitos que gera a cidadania. Este também é um ciclo, mas ao contrário do anterior, inclui. É o que existe nos países que exercem a Democracia plena.

Nestepaiz sob o monopólio dos valores preconceituosamente corretos, a cidadania exclui. 

Considero a rede Beautiful People interessante, nada tenho contra ela apesar de usá-la no texto como referência ao que, aí sim, sou inteiramente contrária: o totalitarismo insidioso que nos circunda. Ao contrário da ditadura esquerdistamente correta à qual me recuso peremptoriamente a ser subjugada, eu faria parte da rede Beautiful People, com tranquilidade. Nunca me inscrevi, por óbvio. Porque, se para me posicionar contra a doutrina totalitária da esquerda me basta ter moral, para sequer preencher o cadastro na Beautiful People me basta ter espelho. Agora, se quiser, inverta a frase Se para me inscrever na rede social eu teria de ignorar que tenho um bom espelho, para aceitar o estado esquerdista que nos desgoverna eu teria de ignorar que tenho moral. E isto não é possível.

4 comentários:

  1. Querida Regina.


    Que texto perfeito. Bem escrito, bem articulado, sóbrio, com verdades que muitos não ousam dizer por medo das patrulhas. Parabéns!!

    ResponderEliminar
  2. marcia190714/05/11, 16:34

    engraçado que quando este post foi postado pela primeira vez, fiquei p da vida por não poder comentá-lo, devido sei lá o quê do blogger.
    lembro que eu iria escrever sobre como é cínica e nefasta não só para a democracia como também para a sociedade este império do politicamente correto. hoje, para espanto de qualquer pessoa de bom senso, parece q para o governo, falar e escrever corretamente também é politicamente incorreto.

    ResponderEliminar
  3. Descrição excelente!
    Conhece esse blog?
    http://diplomatizzando.blogspot.com.br/
    PRA explicita muitas situações desse arcabouço descrito no texto.

    ResponderEliminar
  4. Excelente. No segundo capítulo de O Deus da Máquina (traduzido por Marcelo Centenaro no site Reaçonaria), intitulado O Poder das Idéias, a autora diz que os gregos tiveram a idéia da Ciência, e os romanos, a da Lei. O último parágrafo do capítulo é este:

    "Essa ideia de direito como um conceito abstrato não é dada pelo costume, pela liderança, por um conselho ou um rei; tampouco é compatível com a democracia. Em todos esses casos, a autoridade é arbitrária, tendo sido dada ou num costume particular, ou depositada em pessoas por precedência (ancestralidade ou antiguidade) ou determinada pelo número. Os romanos afirmaram que há uma ordem moral no universo."

    Pois bem. É provável que muitas de nossas referências culturais (ocidentais, e por influência do Ocidente, em outras partes) estejam condicionadas pela idéia de que há uma ordem moral no universo, mantidas pela impregnação dessa idéia no corpo do Direito Romano, que por sua vez seria a base de nossas ordenações sociais. Mais: o humanismo e antropocentrismo posteriores seriam cosmogonias que só "vingaram" por encontrarem base num senso tornado comum, anteriormente estabelecido, condicionante das concepções que pudessem vir a existir.
    Pensei nisso quando lembrei daquele outdoor cubano - "Hoje, no mundo, muitas crianças dormirão com fome: nenhuma delas é cubana". Esse cartaz tem um apelo formidável. Apregoa uma superioridade moral, conceito abstrato que dá sustentação concreta às intenções de "um outro mundo possível".
    Somos movidos pelos sonhos, pelas visões, pela força do alinhamento da percepção, pela idéia, pela energia que recebemos ao sintonizarmos a consciência em alguma emanação do fluxo que nos permeia.
    Somos abstratos e concretos, simultaneamente. Temos natureza dual.
    Somos criaturas de uma ordem natural, e criadores de uma ordem social. Nessa ordem.
    Erramos inapelavelmente quando focalizamos totalitariamente a construção da ordem social, como se ela fosse a nossa natureza única. A ordem social perfeita é utópica porque nenhuma criação nossa poderá conter o que nos contém. Esse delírio, por sua vez, é derivado de outros: do humanismo e do antropocentrismo, que já são derivados de outros mais; nomeadamente, da concepção da existência de uma ordem moral no universo.
    "Mas essa também é a base das religiões judaica e cristã, que até mais que o Direito Romano formam nosso quadro referencial". Pois é, mas com uma diferença: suas respectivas cosmogonias procuram incorporar o que entendem ser a ordem natural às ordens sociais que constroem. À sua maneira, a contemplam; não a negam.
    Já o humanismo e o antropocentrismo radicais, paradigmas da ordem social totalitária atualmente em construção, perderam a referência de seu lugar no espaço; julgam-se no eixo do mundo. E como tal, superiores a toda a periferia. É o que lhes sustém a arrogância, além de encontrarem ressonância numa consensual crença da existência de uma ordem moral no universo.
    "Mas se não houver uma ordem moral não haverá civilização". Não mesmo, acho eu também. O que nos remete ao paraíso, a Adão e Eva, ao fruto do conhecimento do bem e do mal. Desconfio que não consigo penetrar no significado total dessa alegoria, mas é preciso haver noção do que é certo e do que é errado, de um sistema moral, enfim. E quais seriam os critérios? Aqueles extraídos das diversas ordens sociais em construção, compatíveis com as lógicas internas em que elas estão enredadas? Ou buscados na ordem natural envolvente e incondicionada?
    Não estamos dotados de um manual de instruções para a nossa travessia através da realidade. Mas é burrice querer recriá-la, até porque ela já existe. E está longe de ser humana. Significa que os critérios de certo e errado a nos orientar não serão propriamente humanistas, a não ser que queiramos viver iludidos.
    Precisamos nos proteger do infinito desconhecido à nossa volta, construindo nosso lugar. Mas não podemos nos esquecer de onde estamos, vivendo numa ilha de fantasia, apinhada de delírios.


    ResponderEliminar