quinta-feira, 19 de maio de 2011

CAI A NOITE



Aqui a ação simplifica-se 
Derrubei a paisagem inexplicável da mentira 
Derrubei os gestos sem luz e os dias impotentes 
Lancei por terra os propósitos lidos e ouvidos 
Ponho-me a gritar 
Todos falavam demasiado baixo 

falavam e escreviam 
Demasiado baixo 

Fiz retroceder os limites do grito 
A ação simplifica-se 
Porque eu arrebato à morte essa visão da vida 
Que lhe destinava um lugar perante mim 

Com um grito 

Tantas coisas desapareceram 
Que nunca mais voltará a desaparecer 
Nada do que merece viver 

Estou perfeitamente seguro agora que o verão 
Canta debaixo das portas frias 
Sob armaduras opostas 
Ardem no meu coração as estações 
As estações dos homens 

os seus astros 
Trêmulos de tão semelhantes serem 

E o meu grito nu sobe um degrau 
Da escadaria imensa da alegria 

E esse fogo nu que me pesa 
Torna a minha força suave e dura 

Eis aqui a amadurecer um fruto 
Ardendo de frio orvalhado de suor 
Eis aqui o lugar generoso 
Onde só dormem os que sonham 
O tempo está bom 

gritemos com mais força 
Para que os sonhadores durmam melhor 
Envoltos em palavras 
Que põem o bom tempo nos meus olhos 

Estou seguro de que a todo o momento 
Filha e avó dos meus amores 
Da minha esperança 
A felicidade jorra do meu grito 

Para a mais alta busca 
Um grito de que o meu seja o eco. 
(Paul Eluard)

3 comentários:

  1. Pois na semana passada eu estava com vontade de sair de carro por aí, sem destino, ouvindo rock ou punk bem alto e gritando junto.
    Não fui e a vontade só aumenta...

    Abçs!

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  2. Querida Regina.

    Acredite ter em mim um eterno (enquanto dure) admirador do Veneno Veludo.
    Além da qualidade dos textos, você é uma moça de grande personalidade. Também nunca esqueço que foi neste espaço a minha estréia.
    Todo dia continuo provando um pouco da dose que imuniza contra tudo que está errado neste país.
    Parabéns:)

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  3. Eu preciso que me olhes nos olhos


    
e decifres a angústia


    
que te atrai e me tortura.


    
Eu preciso te dizer certas coisas


    
que se calaram em mim quando te vi



    na manhã imprevista e indecisa,



    mas dizer estas coisas custa ânsias



    incontroláveis.






    

Eu preciso de vez que te chegues a mim

    e não me digas bom-dia



    nem me cobres os dias e noites



    da nossa ausência.




    


    Eu preciso de alguém



    que converse comigo


    
no amanhecer.


    (Luiz de Aquino, poeta goiano)

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