domingo, 11 de maio de 2014

MÃE. MAS É SÓ UMA PESSOA

Este texto foi publicado em 2011 e desde então republico todos os anos. Porque nada no país muda, apenas surgem novas tristezas, uma sobre a outra, 
sem que se assombre pelo descaso que é a causa delas. 
Não preciso escrever um novo, apenas atualizar as tragédias. 
Porque as mães continuam a prantear o horror de perder os seus filhos.

"São três letrinhas, todas bonitinhas, fáceis de dizer", que juntinhas, carregam um mundo de significados. A palavra MÃE é beatificada. A imagem de "ser mãe" é santificada. Do tipo que ninguém pode ousar algo diferente, como se a maternidade (parida ou não, pois mãe é quem cria) tirasse da mulher, irremediavelmente, o direito de ser humana. 

Toda mãe é pessoa. Não pedra, não folha, não casca de árvore, não vento, nem luz. Pessoa. Ética ou não, bonita ou não, tranquila ou histérica, ponderada ou histriônica. Feliz ou triste, corajosa ou assustada até com o ar que respira. E toda pessoa é tudo isso, e mais, junto. 

Ensinou-me uma pessoa, e já faz um bom tempo, que a perda de uma vida humana diminui-lhe a dignidade de ser um humano. Há mãe que perdeu a chance de viver a dignidade de ser humana. A mãe das tragédias chuvosas país afora, que perdeu seu filho para o barranco deslizando sob a chuva. A mãe de Santa Maria, que não viu seu filho retornar para casa porque a fumaça de um fogo irresponsável sufocou-lhe o ar dos pulmões, quando ela só queria que eles fossem cheios do sopro divino da vida. A mãe idosa que vê seu netinho morrer por falta de leito em UTI, e chora a vontade de ter ido em seu lugar porque, com tão poucos anos, talvez apenas alguns meses, sequer viveu e já se perdeu.

A mãe que fez o café para sua filha sair para o trabalho, mas não pode guardar seu prato de arroz, feijão, bife e salada, à noite, porque ela foi esfaqueada num assalto. A mãe de uma dentista que foi queimada viva por um filho menor de uma mãe que talvez nem saiba que o seu é um monstro, tutelado pelo estado que não se preocupa com mães e filhos. A mãe que iria visitar a família do filho no sábado, mas antes, viu o acidente de carro que o matou, na TV. A mãe destruída pelo Monstro de Realengo que escolheu uma escola para ensinar que a maldade tem o olho humano, a cara humana e lhe arranca o sorriso dos lábios para sempre. A mãe de Boston que, pelo terror de loucos alimentados por ódios talvez maternos - nem todas as mães são felizes - explodiram uma sua criança e lhe deixaram a outra sem uma perna, mas que pela vida desta e memória daquela, é uma mãe que precisa sobreviver.


A mãe que tentou engravidar por 15 anos e recebeu a notícia que sua criança afogou-se na piscina da escolinha. A mãe que perdeu, ainda vivo, o filho para o crack. Porque o governo que deveria combater o tráfico não o faz, relegando filhos e filhas à morte em vida, à vida na morte das drogas que assombram as ruas. A mãe do filho que bebe demais e joga seu carro contra um ponto de ônibus, cheio de mães e pais e filhos e filhas, que morrem sem que ele próprio sofra um arranhão. A mãe dos legisladores e julgadores, que condenam outras mães ao sofrimento por causa da impunidade.

Não faltam tragédias e lágrimas para contar da mãe que hoje, nesta data, chora por este filho que lhe foi tirado pela violência do dia, da vida, da circunstância, do destino, da imprudência, do descaso. São as lágrimas da pessoa que não é santa, não é pura, não é uma ilusão. É só mãe. É uma pessoa. 

Tears are words can't I say. Às pessoas que choram a ausência, meus respeitos.

5 comentários:

  1. Realmente, essa música possui uma das imagens mais pungentes que conheço: saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu...

    Que dor!

    Lindíssima interpretação da Zizi!

    Abraços afetuosos a todas as mães.

    ResponderEliminar
  2. marcia190709/05/11, 18:11

    ma-ra-vi-lha!
    nem sei mais o que dizer....

    ResponderEliminar
  3. Que lindo e que triste...mas isso é a vida como ela é, e a vida real não é feita de sorrisos diários...beijos Re.

    ResponderEliminar