domingo, 19 de junho de 2011

CAI A NOITE



É só na solidão que a alma se revela, 
Como uma flor noturna as pétalas abrindo, 
A uma luz, que é talvez o clarão duma estrela, 
Talvez o olhar de Deus, de astro em astro caindo... 

E dessa luz, a flor sem forma, há pouco obscura, 
Recebe o seu quinhão de graça e de pureza, 
Como das mãos do artista, animando a escultura, 
O mármore recebe a sua alma — a Beleza. 

Se sofrer é pensar, na paz do isolamento, 
Como dum cálix cheio o líquido extravasa, 
A Dor, que a Alma empolgou, transborda em 
                                                          [pensamento, 
E a pouco e pouco extingue o fogo em que se 
                                                                   [abrasa. 

Como a montanha de ouro, a Alma, em seu 
                                                             [mistério, 
À superfície nunca o seu teor revela; 
Só depois de sondado e fundido o minério 
Se conhece a riqueza acumulada nela. 

Corações que a existência em tumulto arrebata! 
Esse ouro só se extrai do minério candente, 
No silêncio, na paz, na quietação abstrata, 
Das estrelas do céu sob o olhar indulgente... 

Antonio Feijó

1 comentário:

  1. "É na solidão que a alma se revela...."

    Lindo poema!

    "Only the Lonely Knows" , magnificamente cantada por Frank Sinatra , foi o que me veio `a mente ao ler este também magnífico poema.

    Parabéns,sempre

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