quinta-feira, 23 de junho de 2011

CAI A NOITE



Uma harpa envelhece. 
Nada se ouve ao longo dos canais e os remadores 
sonham junto às estátuas de treva. 
A tua sombra está atrás da minha sombra e dança. 
Tocas-me de tão longe, sobre a falésia, e não sei se 
foi amor. 
Certo rumor de cálices, uma súplica ao dealbar das 
ruínas, 
tudo se perdeu no solitário campo dos céus. 
Uma estrela caía. 
Esse fogo consumido queima ainda a lembrança do 
sul, a sua extrema dor anoitecida. 
Não vens jamais. 
O teu rosto é a relva mutilada dos passos em que me 
entristeço, a absoluta condenação. 
Chove quando penso que um dia as tuas rosas floriam 
no centro desta cidade. 
Não quis, à volta dos lábios, a profanação do jasmim, 
as tuas folhas de outubro. 
Ocultarei, na agonia das casas, uma pena que esvoaça, 
a nudez de quem sangra à vista das catedrais. 
O meu peito abriga as tuas sementes, e morre. 
Esta música é quase o vento. 

José Agostinho Baptista

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