quinta-feira, 9 de agosto de 2012

DIÁLOGO SOBRE A AÇÃO


Joãozinho morreu há cerca de quatro anos num acidente de carro, uma estupidez da vida. Era, por assim dizer, como um primo meu [é primo em terceiro grau por parte de pai, da Mari, minha filha], mas era um grande amigo. A família dele toda é amiga. Enfim, Joãozinho, inteligente, do tipo CDF, mas também muito divertido. Farrista, bom de churrasqueira, bom de copo, bom jogador de baralho. Atravessamos várias noites jogando buraco, quando havia muita gente fazendo duplas (de fora), gostava de jogar de parceiro comigo e dizia não gostar de jogar contra mim, pois eu  conseguia marcar suas jogadas. Ninguém nos levantava da mesa, daí as duplas de fora eram sempre as outras. Roubava descaradamente os coringas do baralho, de uma forma espetacular, que ninguém via, apesar do descaradamente ali atrás. Eu via, claro, mas se não era contra mim, deixava quieto... Quando era hora do papo reto, e tínhamos muito, Joãozinho dizia sobre mim: "a Regina é de falar, mas é mulher de ação. O melhor dela é a ação!" 

Ação é algo independente do pensamento. Pode ou não seguir sua conclusão. Pensar demais ocasionalmente pode conduzir à inércia. Assim como não pensar, certamente, traz inércia. Equilíbrio é a chave, e  é tão importante para a ação que, por isso, é difícil. Algo dentro de mim, não preciso definir um nome, seja lá o que for, me move: age. Sofri consequências todas as vezes que deixei o pensamento me congelar, aquele que dizia: "deixa pra lá, não faça!". 

Nietzche disse que toda ação é egoísta, ele tem razão.  Sinto-me um poço de egoísmo, principalmente quando parto para a ação que ninguém mais deseja, ou ainda, aquela que mais teme. Como não sou escrava do politicamente correto,  concordo mais uma vez com o filósofo ao afirmar que "palavras como 'instinto altruísta' soam aos meus ouvidos como machadadas." Gente de ação age porque gosta de agir, mesmo quando faz isso em benefício de outro, faz para o seu próprio prazer. Nem que seja o prazer do dever cumprido. Egoísta é pouco!

O instinto dá o movimento, a liberdade dá a aptidão e o querer. Junte tudo isso numa pessoa que não tem tramelas nem amarras, e você tem uma força da natureza. Será, sempre, uma força de ação, e vai se mexer, fazer, realizar, acontecer, quer queiram ou não. Claro que o exercício da vontade, a aptidão para o querer, e o instinto do movimento devem adequar-se à consciência. Trata-se de uma questão de princípios agir com base em seus valores ou costumes, seja lá qual for o nome que cada um dá ao seu conjunto ético. Consciência, aptidão, vontade, instinto e ação. Se topar com alguém assim  saiba que o efeito é o de um furacão. E se quiser que esse furacão faça parte de sua vida, saiba que ela jamais será morna. Não obstante, você poderá contar com essa força da natureza sempre ao seu favor, lealmente do seu lado, porque quem é de ação alimenta-se nela, dela. 

No fim, não há como explicar porque alguns agem outros não. Sei que a ação me domina, manda em mim. É tão própria e cheia de si, tão independente da inércia que me cerca que é exatamente como são as minhas decisões, aquelas que sempre me levam a outras inúmeras ações. 

Há outro lado: nem sempre aquela equação acima funciona. Parece PI, aquele número infinito que eu jamais descobri a utilidade prática... Você age e não chega a lugar algum, pela inércia de outros. Falta de consciência, de aptidão, de vontade, de instinto, ou, até mesmo, excesso de medo, de encastelamento, de muros, de regras invisíveis, emperram alguém que acaba por te emperrar, também: frustração. E todo mundo perde. 

Não poder agir, ser impedida de realizar o primeiro passo para um acontecimento, é desesperador. Há ocasiões em que o melhor, parece, é não ser de ação para não se frustrar. Preciso muito pensar sobre as vantagens de ser assim. O empecilho entretanto que, de antemão, sei sofrer, é não ser capaz de esquecer que o que se faz combina com o que - e quem - se é. Logo, o que se deixa de fazer, também combina com o que - e quem - se é. Sem ação, não sou livre. Estaria na hora de eu mesma agrilhoar-me? Se o Joãozinho ainda estivesse por aqui me ajudaria nesse dilema, como um ser do pensar e da ação que também era.


Publicado originalmente em junho/2011
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DIÁLOGO SOBRE A PARCERIA

2 comentários:

  1. como seguidora do caminho do meio, acredito que a não ação também é benéfica. tudo depende do momento. queiramos ou não, vivemos de sístoles e diástoles. o problema é saber escolher...

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  2. Marcinha, você, como sempre, entendeu a parada! Coloquei essa reflexão quase como uma confissão de defeitos.

    O tal do equilíbrio, que menciono ser tão difícil, é quase impossível, para mim. Ninguém me ensinou a desligar o botão, nem a tirar o plug da tomada.

    Acho que preciso do tal cadeado.

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