sábado, 7 de abril de 2012

O SANTO JORNALISMO GRAAL

Ah, lá, ou melhor, ah, cá esta que vos fala reeditando posts, novamente. Não preciso mencionar a Teoria do Ciclo em que tudo nestepaiz se repete, repete, sempre para o mal, né não? Pois é. Ao se comemorar o Dia do Jornalista, releiam, ou leia quem não leu antes, o post abaixo, cujo título original, em junho/2011, era O Santo Palocci Graal. Uma reflexão no auge do interstício de Palocci com a corrupção que grassa nos cantos de CorruPTópolis. Como mudam os atores, mas a ópera bufa segue a mesma, serve para WaterFallGate e que tais, incluindo aí, a imprensa genuflexa que tem lado: o lado de quem replica releases da Secom do Planalto. Ou, ainda um pouquinho pior, do Zé Dirceu. Deixei os parágrafos sobre o caso, sem edição. Porque eles provam que, naquela ocasião, eu tinha razão. Ninguém correu atrás...

[Ah, e não deixo de "homenagear" àqueles incapazes de produzir algo de própria lavra, que se pintam e se vendem, sob a máscara burlesca da carinha bonitinha (mas ordinária) de quem se julga prestar relevantes serviços "contra" a corrupção nas "redes sociais" por horas replicando o trabalho (muito bom de uns, nem tanto de outros) de jornalistas de redação, de fato, mas que deixam um rastro em cache de idolatria a notórios escroques... O problema é esses conseguirem entender... o post. (Aspas e reticências são propositais).

À todos os demais, e sim, são muitos, que honram seus diplomas com o exercício correto de sua profissão, alvíssaras!! Esses, certamente, não só inspiraram-se no filme abaixo, como também leram, e respeitam, Rui Barbosa.]


Todo mundo que já teve ou tem contato com a área da Comunicação Social sabe que o filme Todos os Homens do Presidente (All the president's men, Alan Pakula, 1976) é uma referência em estudos das teorias modernas do jornalismo. Para quem não assistiu, o filme trata do escândalo de Watergate, ocorrido em Washington, em 1972, que veio a ganhar as primeiras páginas dos principais jornais do mundo. Tudo, porém, começou em um patamar muito pequeno na esfera política americana: uma invasão do edifício Watergate por cinco aparentes ladrões não mereceria mais do que páginas policiais, mas ganhou, com o tempo, uma proporção não imaginada. O que ocorreu de fato foi um caso amplo de espionagem política que levou o presidente republicano Richard Nixon, eleito em novembro de 1972 para seu segundo mandato, a ser forçado a sair do cargo.

O filme mostra cenas históricas, permeadas às demais dirigidas por Pakula, reforçando sua intenção de bem reproduzir o que foi o caso Watergate, a partir da investigação do caso pelo jornal The Washington Post: a redação do jornal, os repórteres envolvidos, o editor-chefe, reuniões de pauta, contatos com a fonte (o famoso Deep Throat, o Garganta Profunda), enfim, é uma obra-prima do cinema, e não só sob o ponto de vista que o tornara um paradigma do jornalismo.

Suponho que as faculdades "de hoje em dia" ainda recomendem o filme aos alunos, promovendo seções de exibição com debates, simulações, etc. Isso acontecia antigamente, pelo menos, antes da moda das faculdades caça-níqueis via Prouni. Todo estudante ficava "fissurado" naquilo, e incorporava, enquanto estivesse longe da realidade das redações, aquele ideal quase romântico, da profissão. O que ajudava a imbuir no caráter o senso moral da coisa. Mas hoje em dia, o jornalismo praticado no filme é cada vez mais raro. Falo do jornalismo político. 

Não sei se é efeito de posts rápidos e urgentes exigidos pela internet, se é excesso de competição, no sentido numérico maior e de qualidade menor, de jovens profissionais  recém-formados que topam qualquer parada numa redação para conquistar o emprego; se é contenção de despesas por parte dos grandes conglomerados da comunicação, demitindo os melhores editores do ramo, aqueles que atiçam os bons profissionais em sua equipe; se é preguiça de correr atrás da notícia, contentando-se em assinar matérias tendo por base apenas os releases oficiais, muito bem distribuídos, como fonte principal; não sei se é, enfim, o bom e velho vil metal,  via verbas publicitárias do governo, do qual jornais, revistas e TV's cada vez dependem mais (nossa querida imprensa genuflexa voluntária). O fato é que raros são os repórteres que praticam esse jornalismo investigativo. Quando topamos com eles, ficamos mortos de agradecidos pela valentia. 

Desde o lançamento do livro que deu origem ao filme Todos os Homens do Presidente, o Santo Graal do jornalismo era "derrubar um presidente". O sonho de todo repórter, aquilo que eles perseguiam diária e NOTURNAMENTE.  Claro, não é todo dia que se tem Watergate, nem Garganta Profunda, nem Nixon para ser derrubado. Mas nesse processo de busca, acontece de um primeiro-ministro cair, um ministro outro qualquer, um senador, um governador, etc. 

O caso Antonio Palocci, até mesmo pela fragilidade das explicações dadas ao Jornal Nacional, acrescido da reportagem da revista Veja que mostra o embróglio que é, também, o apartamento onde o ministro mora, segundo ele, alugado,  tem todos os ingredientes para ser o Santo Graal dos nossos tempos. Mas me parece que ninguém vai atrás. Nesse fim de semana, a boataria da queda de Palocci tomou conta de Brasília. Todo mundo freneticamente procurando notícias.... em seus laptops, smartphones e tablets. Esperando a notícia vir ao seu encontro. 

Queria entender porque não se interessam por um Santo Graal da categoria de Palocci. É o super-todo-todo-primeiro-ministro de Sua Majestadade, A Presidente do Degoverno das Trevas III. Se trabalhasse, essa que vos fala, em uma redação, eu seria bem capaz de sequestrar meu editor, mantê-lo preso (alimentado e com água, logicamente) caso ele não me autorizasse sair a campo para uma reportagem dessas: qual jornalista da cobertura política em Brasília  não tem pelo menos uma fonte, no grupo conhecido como PTFisco, o bom e velho aparelhamento partidário que existe em todas as empresas e órgãos públicos, que prestam toda sorte de serviços obscuros, abastecendo de informações úteis ao PT? Pois é. Todo jornalista que cobre política e economia, no mínimo, sabe que existe o grupo a operar na Receita Federal (se o seu jornalista de política não sabe, tem que ver isso aí, senhor editor). 

Mas será o Benedito das Pernas Tortas, que nenhum desses exímios repórteres da capital federal pensou em marcar um encontro com sua fonte, em alguma garagem escura, e à luz do isqueiro, perguntar (ou sugerir) ao membro do PTFisco, um cruzamento entre o que Palocci afirmou na tal entrevista (ele alega ter os recibos de aluguel do apartamento que mora) e o que declara o tal senhorio (se encontrarem, pois isso é outro embróglio de laranjas e que tais)? 

Então, essa turma precisa assistir a Todos os Homens do Presidente. E sempre ter um trocado* nos bolsos, ao invés de um press-release da Secretaria de Imprensa da Casa Civil. E daí, é só rodar a belezinha**!

*Trocadilho que o editor-chefe do Post usava, quando um repórter saía à rua, para investigação. Significa manter contato: ter um trocado para usar o orelhão. Logicamente, hoje, na era dos celulares...


** Outra frase dita na redação do Post: significa matéria pronta para rodar, na impressão do jornal.


6 comentários:

  1. Parabéns Regina
    Eu,que não sou da área, entendo muito menos esta falta de investigação de TODOS os episódios de corrupção recentes e a falta de continuidade dos episódios de corrupção "mais antigos",de uns meses atrás,como erenice,etc.
    Para mim isto também é acobertamento entre sócios....

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  2. Ótimo resgate do maior episódio jornalistico da história moderna. Quiça nossos repórteres pudessem retomar suas funções numa nova concepção profissional inspirada nesse ato.

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  3. Comentar este artigo não está fácil para quem como a autora conhece o métier. Uma das dificuldades foi abordada: a contenção de despesa. As redações estão vazias se comparando às necessidades. O pessoal é jovem e inexperiente demais além de, naturalmente, ter um diploma impresso com tinta de lavagem de máquina. Porém, nada impossível a contratar um freela dos tempos anteriores ao ProUni. As redações americanas estão cheias de cabelos brancos ao contrário do Brasil e pelo motivo já citado que é a contenção de despesas. Como se dizia antigamente, um foca custa bem baratinho. E o principal é que como você diz, todas as empresas de comunicação estão ajoelhadas no milho que é distribuído pelas verbas publicitárias. Mas não fica só nisso. Todas as empresas serão fiscalizadas rigorosamente Pelos fiscais do MT, da RF etc etc. Se se meterem à besta, fiscais em cima deles .

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  4. o problema é que o jornalismo brasileiro, na grande maioria dos casos, são os departamentos jurídicos e de publicidade que falam mais alto do que o "aquário" da chefia.
    e isto se reflete até nas matérias "arroz feijão" da editoria de cidade e explode na de política.

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  5. Cara
    Conheci seu blog recentemente e tenho voltado a ele com frequência (trema, pronúncia). Gosto muito da forma como v se expressa, é uma alegria ler texto fluido assim.
    Qualquer dia hei de fazer algum comentário decente, por ora era só para aparecer e elogiar (e massagear seu ego, embora isto pareça despiciendo, pelo seu estilo). E lembrar que throat está com uma letra invertida.
    Abraço
    PeePee

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    1. Obrigada. E obrigada, estava invertida mesmo. Corrigi.

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