quarta-feira, 20 de julho de 2011

CAI A NOITE

Tu, que eu não vejo, e estás ao pé de mim 
E, o que é mais, dentro de mim — que me rodeias 
Com um nimbo de afetos e de idéias, 
Que são o meu princípio, meio e fim... 

Que estranho ser és tu (se és ser) que assim 
Me arrebatas contigo e me passeias 
Em regiões inominadas, cheias 
De encanto e de pavor... de não e sim... 

És um reflexo apenas da minha alma, 
E em vez de te encarar com fronte calma, 
Sobressalto-me ao ver-te, e tremo e exoro-te... 

Falo-te, calas... calo, e vens atento... 
És um pai, um irmão, e é um tormento 
Ter-te a meu lado... és um tirano, e adoro-te! 

Antero de Quental

Sem comentários:

Enviar um comentário