quinta-feira, 7 de julho de 2011

DIÁLOGO SOBRE A HUMILDADE

(Ilustração de Landry Stark, da série de suspense sobre os 7 pecados capitais, do canal francês 13eme Rue)



Você começou cedo: do alto de alguma varanda, com as bochechas cheias de saliva, sacava da boca a chupeta melequenta e cuspia gostoso na cabeça dos passantes. Foi pegando tesão pela coisa, cresceu, encetou praticar cusparada como esporte em estado de arte, com despreendimento nobre, sem vítimas. E quando o cuspe à distância finalmente foi aceito como modalidade olímpica na esteira do vôlei de praia e outras práticas bizarras, ei-lo em verde-amarelo a entupir de glórias o povo mais cordial do planeta. Medalha de ouro, é campeão, é campeão! Desligo depressa a TV, pois urro do Galvão ouvido nenhum merece. 

Aqui começa nosso discurso sobre a humildade. 

Não tomem por mal, mas poucas virtudes, direi logo, foram e continuam a ser tão viciosamente enaltecidas. É sobre seu simulacro, pois, que desejo falar, não sobre a humildade ela-mesma, por mim compreendida como aquilo que, em situações à miúde adversas ou desafiadoras, resulta de um sentido de respeito à realidade – tomar as coisas como elas são, quando nos desafiam e eventualmente nos vencem, é postura que defino como sinal inequívoco dessa qualidade tão confundida, cujo bom nome é tão mal aplicado. Humildade é bela ferramenta quando encaramos o trabalho duro de nos tornar melhores. Já o discurso mole sobre a humildade, repetido em cada portão ao lado do saco de lixo, existe feito vã tentativa de tornar o mundo menor do que é. 

Direi mesmo de uma vez: o elogio da humildade costuma vazar da boca torta de um certo orgulho mesquinho, tacanho e medroso, que tudo mede e compara com o propósito de reduzir o universo humano às proporções ínfimas de seu próprio sujeito. Quem vive se escandalizando com o que toma por arroubo de arrogância alheia, este não pode ser humilde, mas um ressentido a arrastar a tromba penosa de seu orgulho gigante, ao mesmo tempo pífio. 

(Destaque da ilustração acima: pecado, soberba)

Golaço do Romário, sempre decisivo, mas como é antipático e arrogante, como tem o queixo erguido! Que intratável era esse tal de Michelâgelo, que nos legou a Capela Sistina! 

Uma invenção, um prodígio, um grande feito individual, carregado de real valor, é algo que a todos deveria engrandecer ao menos pouquinho, quando mais não seja, pela percepção de que, em seus efeitos, enriquece nossa existência de uma maneira que nós mesmos não seríamos capazes (sou grato ao gênio de Tim Berners-Lee por inventar a World Wide Web, por exemplo); lucro que deveria nos bastar; mas não: porque de outra forma se sentiriam esmagadas, legiões de pessoas comuns se ajuntam ao redor do centro da ágora em que o portentoso da hora, o mais recente Aquiles, é convocado a prestar seu juramento de humildade e repartir com todos o mérito que, a rigor, só a ele pertence.

É ligar novamente a TV e – ecce homo – topar com nosso campeão de cuspe à distância ao lado do Faustão. Vem aí o ritual de praxe.

(Idem: Preguiça: escada rolante para a cama dos sonhos dos vadios. 
Nela, tudo que é necessário para viver está ao alcance de um braço esticado)

Por aqui (mais simpático do que dizer “no Brasil”, como que me exilando numa Suiça imaginária), sagrar-se excelente em qualquer coisa pode tornar suspeita uma pessoa, a menos que esta pague a ousadia com infinitas demonstrações de humildade. O crime de arrogância pesa eternamente sobre a cabeça do vitorioso. Seria de esperar, sim, que nosso campeão fosse convidado a cada canto para receber as justas homenagens. Contudo, peregrinar por programas de auditório e de entrevistas – tudo muito normal e esperado – converte-se no calvário necessário à redenção dos que se atrevem a ser competentes nestepaiz, é o cálice e a via crucis inevitável do vencedor, que, em cada ponto, terá recontada sua vida em termos exemplares – sempre sob o ponto de vista da humildade, claro. Pois vocês sabem como é, o cara está ali só para provar que, embora já flertando com os deuses, continua a ser gente como a gente; em outras palavras, mano, demasiado mano. 

E não importam quantas vezes, contadas em milhares de dias, centenas de semanas, dezenas de meses, anos a fio, ele precisou descartar-se do que mais lhe apetecesse fazer, para treinar, treinar e treinar. A platéia certamente bocejaria, e alguém tentando acompanhar a bem disciplinada, monótona, exaustiva saga do herói, talvez acabasse acometido de cãibras mentais. 

Já aquela história da filhinha do pipoqueiro interessa ao público. 

A pequena de olhos tristes, que “nasceu analfabeta” igual à mãe do Lula, um dia teria dito ao herói, então batido por seu mais orgulhoso e arrogante rival: “tente outra vez, campeão”. Sábias palavras que ela ouvira pela manhã no Programa da Xuxa. Olhos brilhando de úmidos, o magnífico reconhece no depoimento da menina humilde a migalha de pão recebida no momento crucial da carreira, sem a qual lhe teriam faltado forças para prosseguir atrás do seu sonho olímpico. Lágrimas. Faustão engole seco e aprova com um meneio de peru bêbado. Comoção geral. Agora todos miramos encantados o rosto do campeão em pranto, humilde, humilde, humilde, gente boa tanto no pessoal quanto no profissional, e todos somos a menininha de ranho escorrendo pelo nariz que ajudou o vencedor a se levantar, a medalha é minha, é sua, meu povo, a medalha é nossa, pois sem nosso apoio ele jamais teria conseguido cuspir tão longe, tão alto e tão gostoso no meio da cara dos gringos – não, não pode haver a menor sombra de dúvida, we are the champions – nós somos os mais humildes entre os super-humildes do mundo do inteiro e galáxias afora, e de uma forma tal como jamais houve e jamais haverá na história do universo.

Marcelo Randes, liberal-de-direita-conservador, é palmeirense e poeta.


(No alto do calvário, um par de asas e uma auréola aos santos que vencerem a maratona dos pecados. 
Ou, de assistir aos programas de humildade, na TV. 
Estes serão dignos de subir aos céus sendo salvos pelos seus sacrifícios.)

2 comentários:

  1. Excelente artigo!
    Parabéns!

    ResponderEliminar
  2. bela descrição. realmente não há povo mais humilde, educado e ético como o brasileiro..

    ResponderEliminar