segunda-feira, 22 de agosto de 2011

CAI A NOITE


Aqui está, toma o meu retrato; embora de ti me despeça
O teu no meu coração, onde habita a minha alma, habitará.
É como eu agora, mas se eu morrer, será mais,
Quando formos ambos sombras, do que era antes.

Quando eu voltar gasto das intempéries, as mãos
Talvez rasgadas pelos remos rudes, ou curtidas dos raios de sol
A minha face e o peito de silício, e a cabeça semeada
com os eczemas dos cuidados das tempestades súbitas,
O corpo num saco de ossos, quebrado por dentro.

E as manchas azuis da pólvora espalhadas na pele;
Se rivais loucos te acusarem de ter amado um homem
Tão imundo e rude como, ah! então poderei parecer,
Isto deverá mostar o que eu era, e tu deverás dizer,
Será que as dores dele me atingem? Arruínam o meu valor?

Ou atingem-lhe a mente pensante, e ele agora
Amará menos o que tanto gostava de ver?
Aquilo que nele foi belo e delicado,
Era apenas o leite que no estado infantil do amor
O alimentava; o qual agora cresceu forte o bastante

Para se alimentar do que, a gostos desusados, parece rude.

John Donne

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