sexta-feira, 19 de agosto de 2011

SUS: SERVIÇO DE DOENÇA - PARTE IV


Neste post, apresento como não há continuidade nas ações governamentais em saúde publica, a não ser nas vacinas. O resto é joguete político e depende do político gostar ou não de médicos e de saúde publica.

Há uns 40 anos atrás, as escolas médicas ainda estavam divididas entre os sistemas europeus e a vinda da nova escola “americana” de fazer medicina. Poucos livros médicos nacionais estavam disponíveis. Mas os que estavam, eram muito bons. Sim, o médico brasileiro era um cara que sabia se virar. Aprendera o básico que é: colher uma boa história, fazer um bom exame físico e pedir o básico de exames. Com isso, “fecha” 90% dos diagnósticos. O médico brasileiro saía da faculdade já com uns 3-4 anos de estágio em pronto-socorro público e dominava o que tinha que dominar. As escolhas de carreiras médicas recaíram sobre Medicina Interna, Cirurgia, Obstetrícia, Oftalmologia, Pediatria, Dermatologia ou Ortopedia. Os desdobramentos e as hiper-especializações vieram no esteio da americanização da medicina brasileira. Hoje são centenas de subespecializações, e pior, os sanitaristas continuam a ter algo a dizer.

Hoje temos uma formação excessivamente teórica, basicamente porque os pronto-socorros estaduais ou municipais não permitem estágio de acadêmicos. Estudante em hospital público só se houver convênio com Universidades. O resultado disso é que o tempo de formação de um jovem médico passa a ser maior. Quem inventou isso (no RJ) foi o Brizola, que elegava que os acadêmicos comiam muito nos refeitórios dos hospitais e assim oneravam os orçamentos !

Os custos de formar um médico são enormes, e cito apenas o tempo como fator principal. Um ano se preparando para o vestibular, seis anos na faculdade (das 7 da manhã às 17 horas, de segunda a sexta.) Três anos de Residência Médica, dentro da especialização. Não raramente um ano de estágio no exterior ou de Pós-graduação. Do vestibular aos 17 anos, até a pós graduação aos 28-29 anos de idade. Ou seja, os melhores anos da vida em cima de livros.

Quando passa num concurso público, vai receber R$ 1200 reais por mês no Estado, e R$ 2100 reais por mês num município periférico à sua cidade. Ou é contratado por uma cooperativa sem direitos trabalhistas, onde ganha de R$ 6000 a R$ 9000 reais por mês. Na atual situação, esses salários mais atraentes, acabam de se tornar um estorno, porque o IR dá uma mordida forte em abril e muitos colegas recorrem à empregos sem registro por poucos meses até pagarem o IR. Há um estudo que diz que o custo de formar um médico é de aproximadamente R$ 250 mil reais!



 
Agora, do local de trabalho, muitos pronto socorros e hospitais públicos operam há anos em regime de “rodizio de faltas”. Insumos, Medicamentos, Roupas, Gaze... etc etc falta tudo de forma intermitente. Lembram das atribuições do municipio, descritas no post anterior? O Município entra com 15% do custeio. Pois bem, nem todos os prefeitos honram isso, e burlam a lei. Ai fica fácil entender porque  faltam medicamentos no hospital. Verbas são simplesmente recanalizados para outros fins e o paciente que espere. Prestadores de serviço não são pagos conforme contratos e aí há crise de fornecimento, de pagamentos aos contratados, de forma intermitente.
 
Com o final do “milagre econômico” do Delfim Neto, o General  Golbery achou que a saúde pública estava cara demais, resolveu cortar custos e pior, incrementou a entrada de Planos de Saúde. O INAPMS sofreu cortes enormes e os pacientes migraram para a rede estadual sobrecarregando hospitais e postos. E assim o sistema entrou em pré-falência.
 
Acho que todos aqui lembram que o General Figueiredo sempre se cuidava no Hospital dos Servidores do Estado, no Centro do Rio, que era referência para muitas especialidades médicas para todo o pais. Só o fato de um hospital referência ser sucateado ao longo de alguns anos, já é sinal claro de que o sistema não funciona e quando não funciona, começam os problemas.
 
Descalabro foi o Moreira Franco (então Governador do Rio) fazer o Programa Especial da Baixada Fluminense, em 1987, logo após o primeiro grande surto de dengue e enchentes desastrosas. Planejou com o Sérgio Arouca (Sanitarista do PCdB) 14 unidades “mistas” (ambulatório/urgência) de pequena complexidade) e as espalhou pela baixada fluminense. Abriu um concurso público e os funcionários entraram para o Estado pelo Instituto Vital Brasil! Isso porque a lei proibia entrar direto para o quadro estadual, algo a ver com a lei eleitoral.

Pois bem, o PESB pagava 10 salarios mínimos ao médico, fazia-se um curso de lavagem cerebral para poder assumir o cargo. O Moreira perdeu a reeleição para o Brizola e o mesmo Brizola se encarregou de sepultar o projeto do PESB, achatando os salários de imediato e sucateando os postos. No mesmo ano, deu de presente aos municípios de Belfort Roxo, São João de Meriti e Duque de Caxias, esses postos sucateados. Fecharam, e os funcionários ficaram nos postos aguardando o que fazer! As prefeituras levaram 1 ano para se estruturarem em torno da sucata e ressucitaram os mortos, com verba federal. 

Lunarscape, músico-médico carioca da Dinamarca, que é escritor do blog pelas mãos do destino.


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3 comentários:

  1. Mais um belo capítulo da péssima história da saúde no Brasil...

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  2. Menino como o Moreira apanhou por conta dos pebs e depois foi a vez do Marcelo Alencar apanhar por conta dos centros de referências regionais, onde se previa mini hospitais gerais em vários locais do estado.
    Agora o que você acha da celetização da área da saúde? alguns acham que ela facilitaria a meritocracia

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  3. Marcia, Todo mundo apanha por causa dos "planos alternativos" do SUS...

    Lunar.

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