segunda-feira, 22 de agosto de 2011

SUS: SERVIÇO DE DOENÇA - PARTE V



Hoje, descrevo um quadro típico que é assustador, mas ocorre todos os dias pelo pais afora, há mais de 30-40 anos. Me refiro a brigas e bate bocas entre equipes médicas e usuários em pronto socorro público.

A cena é clássica: um burguês bate com o carro na Avenida Brasil e a família se machuca bastante. 5 ocupantes são levados pela ambulância da SAMU para o pronto socorro mais próximo. Chegando na unidade há uma certa demora no início do atendimento, porque o PS está superlotado. O pai de família fica desesperado com a demora e começa a querer o atendimento da família, no grito! No final da gritaria, berra “Eu pago essa m****”. É um clássico, e não comove mais ninguém. Às vezes alguém mais jovem tenta acalmar o camarada, mas é inútil. Quando o usuário diz que paga o “trem” todo, ele quer dizer que paga os impostos que custeiam o sistema. Ora, sabemos que em 80% dos gastos da vasta maioria dos brasileiros, não há emissão de nota fiscal, sabemos que a vasta maioria dos brasileiros nem pagam imposto de renda. Sabemos também que, podendo, a vasta maioria dos brasileiros evitam impostos e encargos seja quais forem. Falar o quê para um pai desses?

Pessoalmente, sempre dava razão ao camarada, e endossava o descontentamento com frases tipo; “Eh amigo, isso aqui tá muito ruim, olha só quanta gente temos que cuidar, e não para de vir gente”. Aos poucos fazia o usuário pensar, e se pensa, não berra! Resumindo, quando o usuário está em casa tomando o whiskeyzinho dele, quantas vezes  pensa no pronto socorro público ou no bom funcionamento da rede hospitalar estadual? Nenhuma vez. Quantas vezes esse camarada ou alguém da família foram em reuniões do Conselho Municipal de Saúde? Alguém respondeu zero? Correto. Agora, o certo é que ninguém está livre de um acidente em via pública, e aí, meus amigos, terão que passar pelo PS público, antes de puxar a carteirinha do plano de saúde. Se a saúde pública é custeada por impostos, nada mais natural o usuário saber quais serviços oferecidos e saber a qualidade desses serviços. Pois é ali que vai saber das dificuldades em montar e oferecer tais serviços.

Já no governo Collor, tivemos o mega desastre chamado Alceni Guerra como ministro da saúde. Esse promoveu apenas a brutal perseguição dos médicos e abriu as portas para a Indústria do Processo Contra Erros Médicos. Usava isso como instrumento de terror, “acalmando” os movimentos de melhoria salarial por parte da categoria. Foi no governo Collor que se engavetou todas as tentativas de votar em definitivo o Plano de Cargos e Carreiras dos Trabalhadores do SUS.
Não há como ter serviços em saúde de qualidade com recursos humanos de 4 origens diferentes, não há como montar um Sistema Único de Saude, sem extinguir os anteriores. Não há como ter saúde pública com os salários oferecidos aos funcionários, em todos os setores.


A verdade é que o sucateamento da rede de saúde, remonta de longa data e a razão é simples: caro demais manter um sistema de saúde publica num pais to tamanho do Brasil. O “Governo” começou a concordar com a frase do Golbery quando esse disse: “Saúde não dá voto!” Não dá voto se funciona, mas quando não funciona, tira voto. Hoje a saúde publica é necessária para os políticos indicarem cargos, saquearem o Fundo Nacional de Saúde e lotearem regiões para vereadores e deputados estaduais. Verbas são destinadas a municípios de acordo com o acórdão político e não de acordo com as necessidades orçamentárias de serviços ou ações em saúde locais.


Vou abordar outro assunto que é explosivo quando se discute saúde publica: o doente! O doente, coitadinho, é usado como massa de manobra, pois é para ele que há saúde publica. Hipoteticamente. Levamos em conta que 30-40 milhões de brasileiros vivem na linha da miséria e mais uns 30-40 milhões logo acima dessa linha (acredito que é mais, mas tento me manter às estatísticas oficiais). Assim temos que ter ambulatórios, pronto socorros, hospitais e infra estrutura diagnóstica para atender essa turma. Porém, ao planejar os serviços de saúde, ninguém contou com o “sociopata”, aquele indivíduo que vai ao posto de saúde e pega um numero para ser atendido para varias especialidades, no mesmo dia (pura terapia ocupacional) e toda semana vai lá. Consegue ser atendido 6-8 vezes por mês. 

A quantidade desses sociopatas é infinitamente maior do que queira admitir o mais modesto secretário de saúde. Formam um pequeno exército com poder de depleção das ações em saúde em qualquer lugar no pais. Muitos se “refugiam” nos postos de saúde para fugir de maridos violentos, vizinhança violenta, medo de ficar em casa enquanto o marido trabalha. Ou então os caçadores de “laudos” para apresentar ao INSS e se manter com o misero “benefício” de auxilio doença. É provável que chegue a 30% de todos os atendimentos diários pelo país afora, esses atendimentos que chamamos de “abuso” do sistema. Mas não há qualquer mecanismo que regulamente esse atendimento.

Marcação de consultas no SUS é hoje uma piada, de mal gosto inclusive. Com a redução dos investimentos, as prefeituras não acompanham a explosão demográfica e não ampliam as redes de assistência. Só para ter uma idéia, para marcar um exame de ultrassom, no municipio onde trabalho, só tem vaga em dezembro. Uma consulta em qualquer dos programas “oficiais” (Hipertenção, Diabetes, Idoso, etc etc) só em janeiro. Novamente se forma um contingente grande nas unidades esperando “desistência”. Sim, as desistências são comuns, o paciente solicita a marcação para o retorno e muitas vezes não aparece. 

Com a dificuldade de se marcar consultas, surge então a “indústria” das marcações. Funcionários responsáveis pela marcação de consultas e/ou agendamento vendem agendamentos. Começou com a pressão de vereadores e candidatos em período eleitoral. Isso porque essa turma tem os tais “Centros Sociais” que prestam serviços à comunidade. Agora pergunto, qual o interesse desse político em fazer o SUS funcionar, se o centro social dele oferece serviços médicos paralelos?

O doente, esse, recorre ao Centro Social do vereador/deputado porque o sistema de marcação de consultas está sobrecarregado.  Fora a “corrupção” que acontece com os agendadores dessas consultas no SUS. Funcionários públicos que se vendem por maços de cigarros, almoço ou R$ 20 para “encaixar” pacientes de Centros Sociais em vagas de desistência. No SUS, acontece com toda a força da expressão: "Criar Dificuldades Para Vender Facilidades."


O doente se revolta e com razão, porém sem saber da razão. Mas se revolta. É mais fácil descontar nos funcionários do que ir ao governador ou prefeito. Para isso o doente é covarde demais. Revolta de funcionários é mais sutil, e acontece perto de feriados e dias festivos. Serviços são sabotados. Cirurgias suspensas por falta de alguma coisa (roupa estéril, gaze, compressas e ou medicamentos importantes), isso quando não quebram Raios-X, Eletrocardiógrafos ou Esterilizadores (autoclaves) etc. O Brizola tentou implementar o relógio de ponto nos hospitais do estado. Esses eram sistematicamente bombardeados com éter e praticamente nunca funcionaram. Agora querem instalar ponto eletrônico! Pagando a merreca que pagam, vai ser novo mico, com certeza.

Lunarscape, músico-médico carioca da Dinamarca, que é escritor do blog pelas mãos do destino.


Arquivo:

SUS: SERVIÇO DE DOENÇA - PARTE III   PARTE II   PARTE I

2 comentários:

  1. Mais um texto excelente doutor. Tomo como base para comentar os Centros conveniados dos bandidos. Aqui, como em todas as grandes cidades do Brasil, vários políticos mantêm clínicas médicas e odontológicas de cunho "beneficente", cobrando evidentemente os custos do SUS. Assim são eleitos seguidamente, junto com os filhos, esposas e parentes. E ainda se dão ao desfrute de se fazer passar por benfeitores da humanidade. Que ódio que dá.

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  2. Maravilha de análise e me fez lembrar poucas e boas que encontrei nestes plantões de fim-de-semana. Agora saúde e educação de qualidades, só quando o povo parar de vender o voto por esmola. Só quando o povo se ver como cidadão, as coisas começarão a melhorar.

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