terça-feira, 30 de agosto de 2011

SUS: SERVIÇO DE DOENÇA - PARTE VII


Os exemplos do post anterior ilustram apenas como o SUS é depenado, por baixo e por cima. Sem uma fiscalização competente, a saúde pública será sempre o que é. Um lixo. Sem uma auditoria séria e “bem intencionada” não iremos evoluir nunca e pela complexidade do problema, levaremos uns 50 anos para acertar tudo que está errado hoje. Isso porque é necessário extinguir e expurgar todas as ações em saúde, definir um novo sistema e fazer desse sistema um modelo único, livre dos políticos e das ações políticas na saúde pública. Isso sem paralizar as ações básicas que são vacinas, programas especiais e pronto socorro.

A parte mais trabalhosa será de afastar as máfias da saúde, máfias das ambulâncias, máfia dos fornecedores, máfias das terceirizadas, máfias dos remédios, máfias do sangue, máfias dos sindicatos e principalmente as máfias dos políticos.

O SUS está morrendo, isso é fato. Sobrecarregado de pacientes, subnutrido de verbas e para piorar, mal gerenciado por parte do Ministério da Saúde, dos Estados e dos Municípios. Fiscalizado? Nunca! Sim, há também um grupo de médicos/funcionários completamente desestimulados e maltratados, que devem compor em torno de 15% da totalidade. Esses remam contra. São aqueles “gazeteiros”  que a mídia se refere quando algo dá errado em algum plantão, em algum município por aí afora. Os grandes grupos de Planos de Saúde não tem interesse em ver o SUS funcionar, e sempre que podem, colocam tragédias médicas nos jornais. E ao lado, uma pagina inteira de comercial da maravilha do plano deles. Sangue derramado e erros, vendem jornais tanto quanto o futebol. Diversos jornais mantém jornalistas em porta de Pronto Socorro.

Mas a pá de cal caberá ao Judiciário.Hoje há uma ingerência enorme por parte do Ministério Público na Saude Pública, e há ingerência maior ainda por parte de Juizes que se acham acima do bem e do mal. MPs agem tal qual alguns juízes, sem o menor conhecimento de causa, determinam procedimentos e ordenam abertura de vagas onde não há. Simplesmente aumentam o tumulto e isso até que é bom, porque expõe quão ignorantes são com relação as reais condições dos hospitais públicos.

Tambem, pudera, essa categoria do Judiciário com seus mega-salários estão completamente por fora da realidade nacional, desconhecem a realidade e se escondem em gabinetes confortáveis e mesmo assim “determinam” internações e procedimentos cirúrgicos em hospitais públicos que não tem vagas (por superlotação). A covardia chega a ser cômica, se não fosse trágica. Intimam médicos e diretores, quando deveriam prender secretários, prefeitos e governadores. Mas isso JAMAIS vai acontecer, ainda está para nascer algum juiz com um mínimo de “balls”. Mas do jeito que está evoluindo, vou passar mais tempo respondendo os “questionários” do MP do que evoluindo e prescrevendo meus pacientes. Sim, porque os usuários insatisfeitos correm para o MP achando que promotor público faz cirurgia ou “manda” operar. Sei que a briga é para “furar a fila”. Vale tudo nessa briga.

Num hospital público um serviço de cirurgia tem capacidade real de fazer 3 cirurgias por dia, de rotina, isso porque os poucos anestesistas fazem as escalas deles de acordo com as especialidades. Assim, ortopedia faz 3, a cirurgia faz 3, a maternidade faz 5, e há reserva para mais 3, 4 cirurgias por dia, e o Centro CIrúrgico opera na capacidade máxima. Pois bem, vá que falte roupa estéril para 2 cirurgias, ou a maternidade pediu mais uma cirurgia? Alguém marcado vai voltar para o quarto sem operar. Vai que faltou material para cirurgia ortopédica ou para cirurgia geral? A “fila” não andou e pior, continua entrando gente pelo pronto socorro.

A maioria dos hospitais públicos tem estatísticas iguais: 14-21 dias de pré-operatório. Na ortopedia é pior, porque o ideal é operar os “colo de fêmur” nas primeiras 48 horas pós-fratura. Do contrário aumenta-se o risco de morte por embolia e pneumonia. No mesmo serviço de ortopedia, a maioria dos pacientes estão acima de 60 anos. E os acompanhantes “sabidos” correm para o MP pedindo privilégio da “terceira idade”. Ora, se praticamente todos os pacientes são da terceira idade, volta o critério por gravidade e ordem de chegada! Aí vem os questionários do MP para o medico preencher. É estranho, nunca ter visto algum representante do MP no hospital. Ai eu pergunto: não é melhor deixar os “sábios” do judiciário operar os pacientes? Afinal, vale a pena se estressar com as “firulas” desse judiciário que em nada contribui para melhorar o sistema? Se olharmos o contra-cheque, a resposta é definitivamente, não.

Mas afinal, como resolver o SUS? Como acabar com as longas filas de espera para cirurgias de maior complexidade? Como acabar com as injustiças de um sistema perverso? Temos que imaginar um sistema correto e satisfatório para todos e isso, a principio, é complicado.

De início, sugiro que a categoria médica abandone de imediato o apoio aos políticos e de forma incondicional passa a exigir condições dignas de trabalho. Isso significa salários e material para trabalhar. Que sejam denunciadas todas as máfias que se nutrem da saúde publica.

Descolar o Ministerio da Saúde da presidência e dar total independência à esse ministério, inclusive com o ministro empossado por votação direta dos “trabalhadores do SUS” e com mandato de 10 anos. A partir dali, pode-se fazer planejamentos, programas e diretrizes a longo prazo, sem visar eleições municipais ou presidenciais. Em 20 anos, os antigos programas de assistência estariam extintos dos quadros funcionais e a partir disso seriam incorporados ao real Sistema Único. As licitações e as compras seriam efetuadas por uma comissão de Auditoria Permanente com os resultados publicados semanalmente. E punições pesadas para quem fraudar.

Redesenhar toda a rede para atender as reais necessidades regionais, e com uma participação maior dos Conselhos Profissionais, replanejar hospitais e unidades ambulatoriais para atender a demanda, estudada, de cada município.

Lunarscape, músico-médico carioca da Dinamarca, que é escritor do blog pelas mãos do destino.

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SUS: SERVIÇOS DE DOENÇA 


4 comentários:

  1. Realmente não tinha me alertado para o "braço jurídico" do setor médico, muito bem diagnosticado aqui. Sobre os questionamentos do MP Doc: eles exigem as respostas por escrito mesmo é? Que as façam a engenheiros, administratores, bandidos,etc ainda vá lá. Mas a vocês? Pode tatuar a resposta com os bisturís nas costas deles?

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  2. Legal mostrar a abrangência dos problemas da saúde. E você está certíssimo na ameaça de se prender o real responsável. me lembro que uma vez faltou remédio chamados especiais (pra transplantados, para pessoas que têm doenças mais raras, hepatite, etc)o beja( advogado)resolveu ajudar os pacientes e, esperto que era,colocou no pedido de liminar o nome do chefe do departamento de farmácia especial: não deu outra, foi a gente chegar com a liminar e pm na hora apareceram todos os remédios. Se a liminar fosse para a farmácia distribuidora do Moncorvo Filho, nada aconteceria.

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  3. Ajuricaba, lembro de um questionário sobre uma idosa de 89 anos, diabética, hipertensa, com glaucoma e mais algumas coisas. Estava internada por uma fratura do colo do femur e tinha que ser operada.
    Lá pelas tantas o MP escreve:
    ....
    8) Qual o real perigo de vida da paciente?
    Respirei fundo e me absteve de detonar o "Tolerância Zero á burrice" e escrevi apenas
    R: O de praxe para pacientes nas condições descritas.
    Agora imagine a qualidade das primeiras outras 7 perguntas !

    Marcia, vi coisas do arco da velha; Um juiz que julgava um caso de erro medico perguntou ao Médico porque ele não tinha mandado fazer ressonâcia. (era um caso de um paciente que procurou um consultorio de clinica médica porque se sentia gripado). O medico respondeu; Meritissimo, eu pedi a ressonância mas o paciente me informou que o plano dele não cobria ! No fim, o paciente tinha Linfoma com o agravante de tambem ter SIDA. (Esqueceu (?) de avisar ao medico que alem de fazer uso contínuo de cocaina, tambem, era bisexual!)

    Lunarscape

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  4. Lunar
    Esta do paciente c/ "amnésia" é uma das mais digamos "surrealistas" histórias que já ouvi. rs

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