domingo, 11 de setembro de 2011

11/09 A RECEITA DO MEDO


A TV ficava no gabinete do boss numa estante à esquerda da minha mesa. Como a porta de comunicação entre a minha sala e o gabinete sempre ficava aberta, eu assistia à TV o dia todo, sempre na Globonews pela manhã, e TV Câmara à tarde. Costumava ver a reapresentação do Bom dia Brasil, mas naquela terça-feira, nem havia ligado a TV. Toca o telefone da minha mesa, era Eduardo, que não estava trabalhando ali naquela ocasião, tinha acabado de chegar na chácara da família dele. "Tá vendo a Globonews aí? O Lanía (Helanias, seu irmão) ouviu no rádio que um avião bateu num prédio em Nova Iorque." Lá não tem TV a cabo e ainda não passava em nenhum dos canais abertos. Liguei a TV, pensando se tratar de algum teco-teco com um piloto muito "ruim de roda", ou alguma pane. Ninguém estava mentalmente armado, até então, para imaginar um Boeing 767 sendo jogado de propósito numa das torres do complexo mais famoso do centro financeiro da capital do mundo. Aquele foi o dia em que todos perdemos essa inocência e a partir dele tudo tornar-se-ia antes do possível, provável.

Até aquele momento o fato recebia tratamento de um acidente, e a reação era tão somente o choque por uma tragédia que envolvia muitas vidas humanas, principalmente a preocupação com a iminência de morte daqueles impossibilitados de serem socorridos e/ou fugirem do prédio em chamas. Isso durou pouco. Vi o atentado com o segundo avião, ao vivo. Foi a última coisa que consegui fazer no trabalho, naquela terça-feira: falava ao telefone com  Lula Almeida, que me pedia para resolver algo para ele que, até hoje, não me lembro o que era. Não dei a menor importância. Disse-lhe, de cima da autoridade conferida pelos meus 1.64cm (toda baixinha é brava), com toda a gravidade da minha voz alterada pelas lágrimas que já surgiam sob minhas pálpebras: "Lula, olha só, não vai dar, eu te retorno outra hora. O mundo caiu." Ele nem sabia o que estava ocorrendo e zangou-se, imagina... eu nem aí, tinha mais com que me preocupar. Contei rapidamente e sugeri que ele ligasse a TV, exortando mentalmente que desligasse logo a poha do telefone.

Com as imagens nítidas do segundo avião claramente arremessado contra a outra torre, ficou óbvio, sem que houvesse necessidade de narração, que tal sequência de episódios não se tratava de acidente. No corredor do quarto andar, todos os rostos diziam a mesma coisa: perplexidade e muita tristeza. E tensão, muita, porque ninguém sabia quando e nem como aquilo terminaria. Esse era o ponto principal: ninguém sabia aonde aquilo ia dar.  O mundo sob o seu terror. Sempre poderia ter um novo avião em qualquer outro lugar, como de fato, ainda aconteceriam o atentado contra o Pentágono, e a queda do United 93, derrubado na Pensilvânia pelos próprios passageiros-heróis. Estava aberta a temporada do terror.

Confesso, nunca fui e na época menos ainda, versada em questões do Oriente, exceto o que via com um pouco mais de atenção, pela imprensa. Cheguei a usar a primeira guerra do Golfo como base de trabalho na faculdade de História nos anos 90, mas nunca dominei o tema Islã/Talibã. Sabia o básico: Al-Qaeda significa "A Rede", e óbvio, espalha sua ideologia anti-ocidente pelo mundo inteiro. Seu maior expoente, Osama Bin Laden, foi mentor de atentatos terroristas que mataram centenas de pessoas ao longo da década de 90. Hoje, todo mundo sabe, ele virou ração para peixinhos no mar (leia: Dead!

Os atentados aos EUA em 2001 dividiram, de vez, o mundo, entre os psicopatas que adoram provocar o medo institucionalizado, e os que encaram esse medo como parte, então, de suas vidas. E precisam reagir à ele. Todo tipo de líder político da esquerda mundial comemorou os ataques "anti-americanos" com festa. Não me sai da retina e dos ouvidos a cena daquela gritaria da mulherada (que é espancada e morta a pedradas em seus "maravilhosos" países) comemorando na rua tal como nós aqui fazemos em gol do Brasil na final da Copa do Mundo. Dá engulhos aos estômagos mais insensíveis das pessoas normais até hoje, tantos anos depois.

As ideologias esquerdistas primam por entronizar o deus-estado, em lugar de qualquer tipo de liberdade religiosa que seja. No Islã, a coisa é mais complicada ainda porque é invertida: utiliza-se da religião oficial obrigatória para entronizar o líder político como deus (trocando grosseiramente em miúdos). De todo o tipo de terrorismo, o disfarçado de luta religiosa é o mais extremista. Há o domínio pelo terror, puro, mesmo. A Al-Qaeda, naquele 11/9, quis registrar seu recado e conseguiu. Estabeleceu em larga escala o padrão do novo terrorismo, fundado no dogma teocrático e no fundamentalismo religioso, com poder de mobilização extremo, perigoso demais por ser desconhecido, muito bem organizado e praticamente impossível em sociedades laicas.

Os atentados mudaram o mundo, sim, de lá para cá. Fortaleceram, sim, essa "causa" assassina, na medida em que seu sucesso foi claro, aparente. O mundo passou a temer o terrorismo como a expressão doentia de psicopatas-líderes polítocos amantes do sangue de inocentes, que exploram (como toda ditadura de esquerda) a miséria, sofrimento, a frustração e as injustiças de sua própria gente, fazendo desta a sua principal arma contra o inimigo ocidental capitalista. E os adoradores da teoria - e são várias ditaduras à tal semelhança pelo mundo, principalmente cá na latino-américa - perderam a modéstia: passaram a usar as táticas que se tornaram conhecidas pelas investigações da Comissão 11/9, então reveladas para o mundo, em diferentes escalas, inclusive, psicológicas, através da linguagem: pregar, em nome da suposta falta de liberdade, o sentimento "anti-estadunidense" que já era regra, até tornar-se uma obsessão. E isso é facilmente frutificado no meio de um povo com o nosso que, por um lado, possui uma baixa-estima assustadora, e por outro, inveja ao máximo tudo o que não pode, por incompetência, ser ou ter.

Do que restou, para mim, de longe, também é inveja. Uma inveja enorme de um povo que sofreu, chorou seus mortos, mas os honra todos os dias por não se dobrar, com covardia, à tirania do medo. Foi o que senti quando visitei, alguns anos depois, o Marco Zero, e não houve um só momento em que minha nuca não ficasse arrepiada. O mesmo quando fui à Arlington e conheci o Pentágono. Mas nada se compara ao que senti no Cemitério-Memorial aos bombeiros mortos enquanto tentavam salvar amigos e desconhecidos naquele inferno de fogo, fumaça e cinzas do concreto e do aço do WTC. Ali impera a dor dentro de um enorme respeito e orgulho.

Estepaiz que já foi o Brasil jamais chegará a ser uma nação assim. Faltam-nos guerras para nos ensinar a forjar nossa coragem e brio com sangue, lágrimas, dor real, perigo imediato e vitórias. É este o nosso maior inimigo. Um inimigo poderoso e brutal: inércia, a omissão preguiçosa e covarde dos covardes preguiçosos.

2 comentários:

  1. menina, você viu as homenagens? Obama e Bush lado a lado?
    as músicas, os discursos, as leituras tudo com muita, mas muita dignidade. Nada de histerismo ou um grupo querendo se sobressair mais que o outro. Isto sim que é união e patriotismo

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  2. Ainda existem os que se chocaram ao ver uzamericanus celebrando nas ruas quando o insano Bin Laden foi morto. Não conseguiram avaliar a dor que O POVO INTEIRO sentiu quando foram vioentamente agredidos em sua própria casa.

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