segunda-feira, 12 de setembro de 2011

CAI A NOITE


Imagem da que amo, mais do que a ela própria,
Cuja impressão clara no meu fiel coração
Me torna medalha sua, e a obriga a amar-me,
Como os reis às moedas, a que o seu selo impõe
O valor: vai, e retira daqui o meu coração
que se tornou grande e bom demais para mim.
As honras oprimem os espíritos fracos, e aos sentidos
Embotam-nos coisas fortes: se maiores, menos as vemos.

Quando partires, e a razão partir contigo,
Então a fantasia será rainha e alma, e tudo;
Ela oferece alegrias mais mesquinhas do que tu,
Mais convenientes e proporcionadas.
Então, se sonhar que te tenho, eu tenho-te.
Pois todas as nossas alegrias são só fantasia.
Assim fujo à dor, porque a dor é verdadeira
E o sono, que fecha os sentidos, exclui tudo o resto.

Depois de tal fruição irei acordar
E, além de acordar, nada mais lamentarei.
Ao amor farei sonetos ainda mais graves
Que se mais honras, choros e dores fossem gastos.
Mas querido coração, e mais querida imagem: ficai.
Ah!, as veras alegrias no melhor são sonho só.
Apesar de ficares, esvais-te depressa demais:
Pois até no início o pavio da vida é um  morrão.

Cheio do amor dela, possa eu antes tornar-me
Louco com um grande coração, que idiota sem nenhum.

John Donne



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