segunda-feira, 19 de setembro de 2011

CAI A NOITE

Ter saudade 
é vaga disforme de um corpo. 
Ter saudade 
é pássaro que aparece e se apaga 
erguido de confusão 
na angústia, teste dado à natureza 
bruxuleante dentro de mim. 
Ter saudade 
é fingir qualquer coisa que inquieta, 
levantada, desenterrada do crivo da memória. 
Por vezes quando o tempo por ela passa 
não passa o tempo da saudade, 
estátua rígida dum destino anoitecido, 
passa um nada meio acontecido. 
Saudade, 
é filha da alma do mundo 
que de tanto ser outro 
sou eu já. 
Saudade, 
porque viajas cansada 
em horas dentro de mim? 
Saudade 
que vieste até à última força desta linha, 
brumosa da eterna caminhada. 
Sempre que vieres 
sem avisares 
leva-me contigo 
para que a paz volte 
à memória de meu corpo 
como o rio que passa 
no tempo final da minha natureza. 

Carlos Melo Santos

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