domingo, 25 de setembro de 2011

É DOMINGO - MORREMOS PELO TORMENTO


Ó miserável condição do homem! Esta não foi imputada por Deus, uma vez que, sendo Ele imortal em Si, colocou uma brasa, um breve brilho de imortalidade dentro de nós, que poderíamos transformar em labareda, mas é apagada pelo nosso pecado original; nós nos empobrecemos por darmos ouvido ao falso conhecimento. E, assim, nós não somente morremos, mas morremos pela tortura, morremos pelo tormento.
Ó miséria multiplicada! Nós morremos e não podemos desfrutar da morte, pois morremos neste tormento de enfermidade, pois nós somos atormentados pela doença e não podemos aguardar até que a tormenta passe, mas são as apreensões e as profecias de presságios dessas tormentas que nos convencem de que a morte não tarda a chegar; e nossa dissolução é compreendida nessas primeiras mudanças, apressada pela própria doença, e nascida na morte que marca data através destas primeiras mudanças. É essa a honra que o homem carrega por ser um pequeno mundo em si, por ter esses terremotos dentro de si, transformados em tremores; relâmpagos em brilhos; trovões em ruídos; eclipses em ofuscações e escurecimento dos sentidos; estrelas flamejantes em exalações inflamáveis; rios de sangue em águas vermelhas? Ele é um mundo em si, então, que se satisfaz por si, não somente destruindo e executando-se, mas pressagiando a sua própria execução.  
Ó inconsistência perplexa. Ó destempero desperdiçado. Ó miserável condição do homem!
John Donne in Meditações 

4 comentários:

  1. Carlos Crusius25/09/11, 10:28

    Excelente texto. Impossível lê-lo sem pensar em Pascal. Após recorrentemente lembrar-nos da miserabilidade da nossa condição, da nossa fragilidade e insignificância perante o mundo, ele afirma o humano por excelência: verdade que somos jogados em uma existência que parece sem sentido, perdidos entre o infinitamente grande e o infinitamente pequenos ("o silêncio eterno desses espaços infinitos de apavora"), mas o que nos distingue é que temos consciência disso. Esse o nosso fardo, essa a nossa luz. Luz que ilumina o mundo, o caminho, ilumina o outro para mim; mas luz que, de tão intensa, por vezes, cega. Um bom domingo, com os melhores sons e silêncios que nos são próprios (referência óbvia ao teu post do Eco da "Ilha do dia anterior").

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  2. Puxa! Que lindo coronel. Estou adorando essa sua nova fase,afinal,quem vive sem pensar na vida,caba sem ela antes da hora. A política é importante,mas,não devemos entrar nela como quem só tem ela mesma na vida. Como disse: Quem vive sem pensar na vida(que é muito mais que política)acaba perdendo sua vida sem obter o que esperava dela.

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  3. Obrigada pela visita e comentário, Anônimo das 14:19. Sei que veio por indicação do Coronel do CoroneLeaks, mas aqui é meu, mesmo...rs. O Veneno Veludo pensa na vida, o tempo todo. Inclusive na vida política destepaiz.... Volte sempre!

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  4. Vi que era em paralelo ao do coronel,por isso sabia que falando aqui estaria falando com ele e contigo ao mesmo tempo. Essa foi a intenção. anônimo das 14:19

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