quarta-feira, 14 de setembro de 2011

CAI A NOITE


Vem às vezes sentar-se ao pé de mim
— A noite desce, desfolhando as rosas —
Vem ter comigo, as horas duvidosas,
Uma visão, com asas de cetim...

Pousa de leve a delicada mão
— Rescende amena a noite sossegada —
Pousa a mão compassiva e perfumada
Sobre o meu dolorido coração...

E diz-me essa visão compadecida
— Ha suspiros no espaço vaporoso —
Diz-me: Porque é que choras silencioso?
Porque é tão erma e triste a tua vida?

Vem comigo! Embalado nos meus braços
— Na noite funda há um silêncio santo —
Num sonho feito só de luz e encanto
Transporás a dormir esses espaços...

Porque eu habito a região distante
— A noite exala uma doçura infinda —
Onde ainda se crê e se ama ainda,
Onde uma aurora igual brilha constante...

Habito ali, e tu virás commigo
— Palpita a noite num clarão que ofusca —
Porque eu venho de longe, em tua busca,
Trazer-te paz e alívio, pobre amigo...

Assim me fala essa visão noturna
— No vago espaço há vozes dolorosas —
São as suas palavras carinhosas
Agua correndo em cristalina urna...

Mas eu escuto-a imóvel, sonolento
— A noite verte um desconsolo imenso —
Sinto nos membros como um chumbo denso,
E mudo e tenebroso o pensamento...

Fito-a, num pasmo doloroso absorto
— A noite é erma como campo enorme —
Fito-a com olhos turvos de quem dorme
E respondo: Bem sabes que estou morto!

Antero de Quental

2 comentários:

  1. Eu já vinha de uma vibração de emoção, então, li.... e chorei.
    Beijos

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