sexta-feira, 7 de outubro de 2011

CADÊ A PALAVRA QUE ESTAVA AQUI?



Como dizia aquela canção: “hoje eu acordei com saudades...” de algumas palavras. Sim, de alguns conjuntos de letras que me fazia companhia e me ajudava a me comunicar. Aí, de repente, elas viraram aquelas amigas distantes que raramente nos lembramos, mais quando o fazemos vem um sorriso nostálgico se não no rosto, no coração.

O legal é que algumas delas são resumos do progresso. Antes você discava o telefone, agora você tecla. Para valorizar o trabalho escolar, você o datilografava. Agora digita rapidinho e conta com o auxílio luxuoso do tio Google. Por falar nele, qual foi a última vez que você usou ou falou a palavra enciclopédia? E, lembra de quando se fazia o dever na escrivaninha e luminária se chamava abajur? Isto era do tempo em que se tirava foto na máquina de retrato, se fazia xerox e não fotocópia e comprava legumes e verduras na quitanda e não no hortifruti ou “horti” para os mais íntimos. Nesta época, na tevê passava propaganda, e não reclame, do bronzeador Rayto de Sol. Atualmente bronzear voltou a ser apenas um verbo e o que se leva para praia é bloqueador solar...

E no item penteadeira (outra esquecida), mulher agora não raspa a perna, depila. Não usa mais creme-rinse e sim condicionador. Ainda na área capilar, se ela tem cabelo crespo não faz mais touca, faz chapinha. As de cabelo liso, por sua vez não apelam mais para “permanente” e sim para um babyliss. E, eu perdi o momento em que rímel virou máscara para os olhos, e em que pó-de-arroz virou simplesmente o apelido da torcida tricolor carioca e não mais o nome de algo que se passava no rosto. Isto agora é blush.

Seguindo no mundo “mulherzinha”, no início da era Lula a gente usava alicate de unha para tirar as cutículas e acetona para retirar o esmalte. Hoje se usa removedores: de cutícula e de esmalte e, a mudança do nome trouxe também uma menor qualidade...

Também não posso me esquecer de usar bastante a palavra batom, pois o “lip-stick” vem se insinuando e, mais dia menos dia tomará o lugar dela. Outra coisa, as mulheres mais finas como a Velvet não usam mais sapatilhas nem anabelas. Chiqueréssimas, elas vão de ballerina e de espadrilles, respectivamente. Aliás, Velvet me faz recordar o cotelê. Ninguém mais usa veludo cotelê ou ele também tem novo nome?

Os homens que me perdoem, mas parecem que realmente somos mais volúveis, pelo menos nas trocas de palavras. Dito isso, chegou o momento do armário. Lá, um dia foi guardado, collants, mini-blusas, corpetes e cinta ligas. Hoje tem bodies, tops, espartilhos e espartilhos com liga. A meia três-quarto virou meião, a boa e velha soquete para alguns fabricantes virou meia sem punho. Não, não me perguntem como aquele conjunto de ossinhos que ligam a mão ao braço foi parar em um produto para os pés...

Uma coisa que poucos têm saudades é do seletor de canais dos aparelhos de tevês. Sim, isto pode está no subsolo da sua memória, mas houve um tempo em que a gente tinha que se levantar ir até o aparelho e girar um dial com números iam de 2 a 13... Agora, aposto que poucos com idade até 40 anos entenderiam se pedisse que “arrumasse” a antena da tevê, ou regulasse a faixa horizontal...

Mas tem também uma série de palavras que demonstravam sentimentos que sumiram na poeira das ruas. Ninguém mais está alegre e sim feliz. Por outro lado dificilmente você encontrará alguém triste. Este estará deprimido. E nervosa ficava nossa mãe. Tornamos-nos um bando de estressados. E se o nervosismo for por medo, ops, fobia, de voar, não será uma aeromoça que nos acalmará. Simpática, uma comissária de bordo nos oferecerá um copo de água. Também pode ser que apareça um comissário, afinal houve uma evolução e os homens podem perfeitamente exercer funções antes exclusivas das mulheres.

Brincadeiras a parte, é legal (este adjetivo é um bravo sobrevivente) a gente pensar um pouco nestas mudanças de vocábulos. Cada simples palavra esquecida quando lembrada nos encaminha para a história. E vamos combinar que há muitas que já deveriam estar no fundo do baú, né não?

Mirtes Guimarães, jornalista mireiroca que traduz o cotidiano para o blog.

Arquivo:

(Photo: da Velvet, de uma bolsa de praia, que na praia do Planalto Central 
é usada como bolsa de livraria aos domingos)

8 comentários:

  1. Marcinha! Televisão de válvula, tubo e transistorizada! Nó! Quem tem menos de 35 anos, talvez não se lembre. Quem tem menos de 29, certamente não sabe o que é...

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  2. Eu vi tudo isso acontecer, hoje estou com 59 (sou de 1952).
    É interessante notar que eu era apenas uma criança triste, hoje sou mais um adulto com depressão.
    De qualquer forma, há coisas que permanecerão eternamente na nossa memória, apesar de que, infelizmente, as más lembranças são mais fortes do que as boas.
    É a vida, muitos dizem, e eu tenho que concordar, "c´est la vie".
    "Mankind: From Ape to Apple .... Think !!"
    @BobWebBB

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  3. Bob, adorei o "from ape to apple"!
    Velvet a bolsa bombril é um ar-ra-so

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  4. Mais um show da formiguinha atômica(Eita, essa também poucos conhcem). Legal (usei feliz) o resgate que fez das palavras. Tem um e-mail que circula e mostra coisas que fazíamos e não nos causavam mal e hoje até são crimes ( p.e. andar sem cinto nos carros)
    Parabéns pelo resgate

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  5. Marcinha, como sempre, adorei o texto despojado e light.
    Claro que sou feliz horrores e momentos deprê, só rolam rápido nos meus papos com a Re no TT, aqueles, que posso deletar à velocidade da luz, afinal, não é in mostrar qualquer dor. Grandes beijos, Blue.

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  6. Boa Mirtes.
    Eu era o "antenista" designado na familia. Moravamos em São Conrado e apenas a Tupi tinha retransmissora boa para aquela área. A melhor posição da antena era no telhado da casa. Assim quando a imagem ficava "chuviscada" demais meu pai me mandava subir no telhado para ajeitar a posição. Era na base do "berro": Tá bom ai ? "Nãããõooo, ainda não"! e eu pacientemente girava a antena milimétricamente para pegar a melhor posição. Não raramente, isso acontecia debaixo de chuva e vento !
    Era um televisor Colorado RQ valvuladíssimo mas de 18", Só a gente tinha uma daquele tamanho, na rua.

    Lunarscape

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  7. e o bombril na antena interna,hein?
    vamos combinar, caro lunar, que isto irritava para kct...(rs)

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  8. Jorge Atakardiac10/10/11, 19:03

    Arrumar a antena ou o horizontal foi ótimo. Ainda tinha linhas em diagonal que eu gostava de arrumar. Levava um tempão até as válvulas esquentarem e a imagem aparecer.

    Mas foi nesse caixote com tubo de imagem preto e branco que vi o homem na Lua, o milésimo de Pelé e o quartel do Renato Aragão, que eu ria de cair no chão e ficar sem ar. Bons tempos.

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