domingo, 2 de outubro de 2011

CAI A NOITE



Uma taça cheia, bem lavrada, 
Segurava e apertava nas mãos ambas, 
Ávido sorvia do seu bordo doce vinho 
Para, a um tempo, afogar mágoa e cuidado. 

Entrou o Amor e achou-me sentado, 
E sorriu discreto e sábio, 
Como que lamentando o insensato: 

«Amigo, eu conheço um vaso inda mais belo, 
Digno de nele mergulhar a alma toda; 
Que prometes, se eu to conceder 
E to encher de outro néctar?» 

E com que amizade ele cumpriu a palavra! 
Pois ele, Lida, com suave vénia 
Te concedeu a mim, há tanto desejoso. 

Quando estreito o teu amado corpo 
E provo dos teus lábios fidelíssimos 
O bálsamo de amor longo tempo guardado, 
Feliz digo eu então ao meu espírito: 

Não, um vaso tal, a não ser o Amor, 
Nenhum deus o formou ou possuiu! 
Formas assim não as forja Vulcano 
Com os martelos finos e sensíveis! 
Pode Lieu em frondosos outeiros 
Pelos seus faunos mais velhos e sagazes 
Fazer pisar as uvas escolhidas 
E ele mesmo presidir ao fermentar secreto: 
Bebida assim não há desvelo que lha dê! 

Johann Wolfgang von Goethe

1 comentário:

  1. Olá,
    Algumas bebidas do coração nos inebriam de tal forma que acabamos querendo mais, sempre mais. Sempre bom embebedar-se de amor.
    Um abraço e ótima semana para você!

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