sábado, 12 de novembro de 2011

CAI A NOITE



Meus lábios, meus olhos (a flor e o veludo...) 
Minha ideia turva, minha voz sonora, 
Meu corpo vestido, meu sonho desnudo... 
Senhor confessor! Sabeis tudo — tudo! 
Quanto o vulgo, ingênuo, ao saudar-me, ignora! 

Sabeis que em meus beijos a fome dormira 
Antes que da orgia a fé despertasse... 
Sabeis que sem ouro o mundo é mentira 
E, como do fruto que Deus proibira, 
Um luar tombou, manchando-me a face. 

Pássaro, cativo da noite infinita! 
Águia de asa inútil, pela noite presa! 
Ó cruz dos poetas! ó noite infinita! 
Ó palavra eterna! minha única escrita! 
Beleza! Beleza! Beleza! Beleza! 

Eis as minhas mãos! Quem pode prendê-las? 
São frágeis, mas nelas há dedos inteiros. 
Senhor confessor! Quem não conta estrelas? 
Meus dedos, um dia, contaram estrelas... 
Quem conta as estrelas não conta dinheiros! 

Pedro Homem de Mello

Sem comentários:

Enviar um comentário