sexta-feira, 2 de novembro de 2012

CURSO DA VIDA

Este é um dos textos mais puramente belos que já tive ao meu alcance, acerca do tema "Finados". Foi uma honra publicá-lo no ano passado, quando o seu autor, Ailton Benedito, ainda resistia ao canto da sereia, não havia feito seu próprio blog, o Bendito Argumento. Republico-o, sem edição, exatamente como me foi enviado na ocasião. Se palavras pudessem explicar o que vai na mente cujo espírito e ação são comprometidos com seus melhores sentimentos, lastreados em seus mais firmes valores, apenas essas abaixo poderiam ser o que são, e o que para mim (o autor me permite a indiscrição, bem o sei) elas significam, pela data em si de Finados, pelos queridos que já se foram, por nós que aqui estamos com nossas saudades, mas também, pelos acontecimentos todos da época em que foram escritas. Nascemos e revivemos todos os dias, mesmo quando parece que morremos.
É o Curso da Vida!
(Clique no player abaixo, antes de começar a ler. É ouvir, refletir, assimilar, homenagear. Viver!)

Por Ailton Benedito

"Dia de finados", não consigo não pensar em todos aqueles que passaram, que passam e que passarão por nossas vidas, que passam. Aqueles nossos mais queridos, que, não raramente, têm suas vidas ceifadas intempestivamente, "antes da hora". 

Na caminhada pela vida, a hora sempre chega. Nem antes, nem depois. Não se apressa. Não se procrastina. Avós, pais, tios, irmãos, irmãs, filhas, filhos, amigos, amigas, conhecidos, desconhecidos. 7 bilhões de almas nesta terra de passagem. 

A criança concebida, gestada, muitas vezes arrancada do ventre "antes da hora". Por quê? Por que não é a "hora dos pais"? A criança vinda ao mundo que a agride de todas as formas, infligindo-lhe vis indignidades inumanas. A criança que se integra a famílias desestruturadas, malformadas, arruinadas pela ausência dos valores mais básicos. A criança que, malnutrida de valores, alimentos, ensinamentos, do ventre ao romper a adolescência, que já não a prepara para o ser adulto. 

Adolescente, na aurora das descobertas transformadoras. À procura insaciável pelo seu próprio mundo. Adolescente, que, vidrado nos símbolos sociais materiais, experimenta, muitas vezes, as parcas possibilidades dos pais. Adolescente, circundado por motivos de escolhas capitais. Entre o bem e o mal. Todas o farão adulto, muitas vezes sem abandonar o antes. 

Adulto, já "pronto" (?) para cuidar de si e projetar as futuras gerações. Para qual futuro. Haverá? Adulto, que encontra encontros, desencontros pessoais, profissionais, passionais, amorosos, até fazer com outro um mundo seu. Família com novas crianças, adolescentes, adultos e, enfim, idosos, ocasos de vidas passadas, passando. O mundo que se encerra na família, resultado dos desígnios mais insondáveis 

Idosos, que já olham para trás. Sentindo tão próximos da infância, quanto mais distante dela. Idosos, que conseguiram superar todas as desgraças imagináveis, até chegar ao ponto em que elas já não tem importância. Por que tiveram? Idosos, que conseguiram superar todas as desgraças imagináveis, até chegar ao ponto em que elas já não tem importância. Por que tiveram? Idosos, mais aproximados do espírito do que do corpo. Este foi. Aquele que é. 

Afinal, bebês, crianças, adolescentes adultos, idosos... em qualquer fase da vida, pode "ser a hora" de não estar mais entre nós. Saibamos viver com todos os nossos queridos cada momento, não como se fosse eterno, mas, para sempre! 

Nota do blog: Mistérios, Milton Nascimento, Clube da Esquina, de Minhas (nossas) Geraes, na voz irrepreensível de Joyce... Porque o dom da vida é mistério agraciado a todos, indistintamente, e é valor absoluto. "Vida breve, natureza", são os próprios mistérios do curso da vida tal como o curso natural de um rio, que ao nos vermos nele, nos ensina a navegá-la. Porque só se vive, vivendo. "És-se, sendo".
Que no curso da nossa vida ainda em curso, possamos honrar o legado deixado por aqueles a quem amamos e que já passaram por seus próprios mistérios terrenos, mas que agora navegam nos mistérios divinos, supremos. 
Que Deus, o Pai em sua graça misericordiosa, nos abençoe a todos!


6 comentários:

  1. para um texto impecável deste só me resta dizer amém!

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  2. Querida Regina.

    A marcinha disse tudo! Amém.

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  3. Esse foi uns dos melhores textos, que tive a oportunidade de ler, FORMIDÁVEL!!!

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  4. ...e sigamos na estrada, com nossos vivos e nossos mortos. Porque morrer nada mais é que fazer a curva lá na frente, sair do alcance das vitas de quem vem logo atrás...

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  5. Estou te seguindo, vi no twitter uma mensagem tua e cheguei aqui*...
    Gostei, é divino! Acredito no que escreveste, sinto saudades dos que já perdi, mas sei que estão em Paz, eram pessoas do Bem.
    Obrigada por partilhar conosco tão maravilhoso texto.
    Beijo da Mery*

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  6. Para mim, todo dia é finados, os que mais se importavam comigo se foram, e só me restou o que tenho hoje, a minha companheira e cumplice. No mais, uma garrafa de vinho e um Blues !

    Lunarscape.

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