domingo, 23 de setembro de 2012

DIÁLOGO COM LEVEZA: ENTRE POLÍTICA E A VIDA REAL

"O que nos ajuda mais a conservar e manter a nossa força é o fato de sermos amados; 
e o que se lhe opõe mais é o fato de temermos isso."  (Marco Tulio Cicero)


O mundo mostra-se em diversos colapsos segmentados. Um exemplo deles, bem ao gosto dos desavisados órfãos de revolução, piqueteiros de hastag sempre à espera de uma passeata virtual que lhes mude o seu mundinho particular, é a "Primavera Árabe", que na verdade não passa de um inverno de sangue. Também há o socialismo sindicalista europeu destruindo a economia do Velho Continente, um país por vez, e aos poucos, alguns acordando e chamando "a direita" para corrigir as porcarias que a esquerda sindical apronta. Cá, nessas terras morenas, estepaiz feito CorruPTópolis em um eterno looping de escândalos de corrupção no seio deste solo, mãe gentil, acompanhando o descortinar do maior deles, o mensalão, em sua fase de julgamento E CONDENAÇÃO de seus feitores. 

E eu, meio à minhas próprias tormentas, nesse domingo, buscando alguma leveza, seja entre as tempestades alheias do país, do mundo e as bem particulares. É um domingo meio a tal período, tanto trabalho fora de casa e algumas gratas e maravilhosas surpresas nessa última semana. E assim, entre feliz e tensa tanto quanto, esperando a que começará e ainda e sabe-se lá como terminará, é um dia bem bom para uma reflexão, e reedição deste texto que já faz quase um ano, instalei aqui. Não que eu tenha mudado, e nem que não tenha mudado. É que hoje, no silêncio lento do meu quarto de hotel, sozinha, não sei se o melhor caminho é ser leve. Sei que, eventualmente, é preciso.

Fácil e tentador buscar razões e apoio externos para encontrar o que nos falta, interiormente. Difícil é encontrar, ou pelo menos, discernir o que pode ou não nos ajudar nesse processo de nos tornarmos mais leves. Mas é indiscutível que motivações externas nos auxiliam, sim. 

Existem guerras travadas dentro de cada um. Existem dinastias, séculos de histórias de vidas e expectativas distintas, que podem ser vistas - e contadas - sob múltiplas perspectivas e narrativas. "Para se fazer determinadas histórias, é preciso dois", eu mesma afirmei no comentário desse poema aqui. Existem expedições dentro de cada um de nós, que procuram e encontram restos, sítios arqueológicos de sentimentos, sedimentos, civilizações inteiras deles. Existem momentos como um bebê que nasce, e sorri. Um avô, cansado, que dorme, tranquilo. Dentro de nós, existe tudo aquilo que existe em simultâneo em todas as partes, e que podem se potencializar pelo que de recebemos, de outro(s).

Existem montanhas-russas de emoções particulares, aviões arremetendo por panes ou ventos laterais. Guardamos anseios de populações que migram, êxodos de famintos, multidões em tentativas de acertos. Vulcões extintos e lavas em ebulição. Como, então, encontrar no mundo externo e dentro de nossas infinitas contradições, um tanto de leveza? 

Há pessoas no mundo capazes, muito, de influenciar e ajudar, para que o universo ao nosso redor torne-se mais tangível, palatável, menos turvo, mais fácil de ser conduzido. Leve. Por que não recorrer a tal auxílio? Um pedido e uma palavra em resposta: "ajudo", e só isso, pronunciada por um caráter inabalável, já inicia o processo de tornar tudo mais leve. Não há certezas, apenas confianças. E uma mão que segura na sua.

Mais que a palavra, é a ação que vem dela, que determina a confiança. Quando alguém, preocupado com o seu bem-estar, prova, agindo efetivamente que a você tem em alta consideração, o mundo se abre para você. Para vocês. Um é a fortaleza do outro. Juntos, são imbatíveis. Uma única rocha, uma única montanha, um fruto, uma casa, uma raiz, um vento: um mundo completo. 

Pertinho do meu aniversário, em 2011, ganhei no meu mural no Facebook: "Sente-se a inteligência, ao se fazer escolhas simples". Em meio ao universo exterior inteiro que há dentro de mim, questiono, usando o gesto mais que simples ("tu és muito inteligente") de redigir este texto, de forma a expor - coisa meio rara - um ou vários fragmentos e compartimentos que desnudam meu espírito inseguro, latente, sôfrego, principalmente neste momento tumultuado, para tentar dizer aquilo que foge às palavras e que, no entanto, precisa delas para existir em sua forma. Questiono também se elas são mesmo necessárias. 

Aquela mão que de alguma forma sempre segura a minha, um olhar que se retorna, me toma e me diz com a firmeza da verdade e da liberdade que só um caráter inabalável possuem: "eu te conheço". Eu sei que há a mão que me sustém e que entende o que não sei dizer. Essa certeza é feita de vento, sou e somos esse vento. Não apenas um pedaço do vento dentro do tempo, somos ele todo. E é esse vento que me traz, neste domingo, a leveza cuja vontade de perseguir me havia sido perdida, há um bom tempo, em função das tormentas em que me meto e me metem, com meu consentimento. Agora eu a quero.

É esse vento, não apenas um pedaço do vento dentro do vento, mas o vento todo, que, leve, me traz outras palavras, que originaram a confiança tão firme. E outras situações e ações que não prescindem delas, das palavras, mas das que ficam subentendidas pela maturidade e segurança de quem não as diz. A base das relações humanas maduras e sérias é construída de verdade, respeito e liberdade. É essa a base que torna a relação humana única. Alguns podem chamar de amor. Amizade, parceria, cumplicidade. Não me importa definição. Importa que o que me impulsiona em busca dessa leveza é uma força, que só uma fortaleza poderia emprestar. Aquilo que existe dentro de mim e dentro dessa rocha, é algo que existe também à nossa volta. Se isso torna-se frequente, todos percebem, e os faz crescer juntos conosco, fortes. E leves? Que sim! E importa que essa força leve registre-se em qualquer história que seja, como e quanto ela seja, moldada pelas noites metaeufóricas e pelas manhãs metafóricas (mas reais). 

Precisamos mesmo de palavras? Que palavra alguma pode sequer se aproximar da importância do que é palpável, sentido ao toque, ouvido em sons, experimentado em sabores: o curso da vida. 

Leves, declaramos o fim de todas as fronteiras, e ao se dizer o necessário (será?) adeus, daquilo que surge de bom, inseparamo-nos. Quem foi que disse que uma imagem ou uma palavra, externa, não nos ajuda a encontrar uma ilha de tranquilidade meio ao mar de tormentas do mundo em colapso que nos rodeia? No fim é tudo mesmo uma questão de escolha. Escolhemos o que molda uma vida: a fortaleza. E daí, tudo o mais que deseja, e sim, consegue bastante bem me enfraquecer e me tirar a leveza que já tive, torna-se de uma insignificância atroz. 

6 comentários:

  1. "Sei que entendes o que não sei dizer" é muito bom. Há um espelhamento fantástico, aí, pois como é que eu "sei" que entendes o que eu não sei dizer, e o sei sem que tu o digas por mim? Isso dá um livro... Parabéns.

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  2. Lindo texto Velvet, parabéns, por alguns instantes eu me senti amparado, dentro desse imenso desamparo que tem sido a minha vida ....
    As palavras nos são úteis, na medida em que nos permitem expressar aquilo que estamos sentindo, externar as nossas angústias, os nossos anseios, as nossas idéias ....
    Vamos assim escrevendo a nossa história, deixando para os nossos filhos e netos um registro daquilo que somos e pensamos ....
    Um grande abraço de um seu admirador, Deus te abençoe e proteja sempre !!
    @BobWebBB

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    1. Bob, Deus dá o frio conforme o cobertor, e isso para mim não é lenda e nem frase de auto-ajuda. Eu me permito, hoje em dia, jogar-me na silenciosa (porque descer do salto jamais) tormenta de me sentir miserável. É nas palavras que nos encontramos, sejam de amor, parceria, amizade, cumplicidade, dor e alegria. Nas palavras sabemos que o que vem, vai e volta, fica e passa. Você saberá, como tem sabido, passar por seus momentos ruins. E eles serão história. Abraço!

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    2. Perfeito Regina, a cada novo texto seu, aprendo um pouco mais dessa difícil arte de "viver a vida" !! Bjuus !! Cheers !!

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  3. Marcelo Rodriguez24/09/12, 22:30

    Valorizar as acões, sem tirar mérito das palavras (de quem sabe escrever, ou dizer, obviamente), para aprender com bons amigos, e parceiros, que carater largo é nobre. Entendi ?
    Também acho delicia sentir-se leve por causa de outro(s). Mas, discordo sobre aprender sem cometer erros (desculpe).
    Vamos então, dentro deste vento, fazer história.
    Desnecessario ressaltar a qualidade e beleza do texto.

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    1. Ler os outros "diálogos", antes de comentar... Isso é ação que valoriza as palavras. O mérito, nesse particular? O plural em "dentro deste vento, fazer história." O plural, Marcelo. ;*

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