domingo, 13 de novembro de 2011

É DOMINGO - NÃO HÁ VIRTUDE SEM DESORDEM


Os choques e abalos que a nossa alma recebe pelas paixões corporais muito podem sobre ela; porém podem mais ainda as suas próprias, pelas quais está tão fortemente dominada que talvez possamos afirmar que não tem nenhuma outra velocidade e movimento que não os do sopro dos seus ventos, e que, sem a agitação destes, ela permaneceria sem ação, como um navio em pleno mar e que os ventos deixassem sem ajuda. E quem sustentasse isso, seguindo o partido dos peripatéticos, não nos causaria muito dano, pois é sabido que a maior parte das mais belas ações da alma procedem desse impulso das paixões e necessitam dele. A valentia, diz-se, não se pode cumprir sem a assistência da cólera. 
 Ajax sempre foi valente, mas nunca o foi tanto como na sua loucura (Cícero) 
Nem investimos contra os maus e os inimigos com tanto vigor se não estivermos encolerizados; e pretende-se que o advogado inspire a cólera nos juízes para deles obter justiça. As paixões excitaram Temístocles, excitaram Demóstenes e impeliram os filósofos para trabalhos, vigílias e peregrinações; conduzem-nos à honra, à ciência, à saúde - fins úteis. E essa falta de vigor da alma para suportar o sofrimento e os desgostos serve para alimentar na consciência a penitência e o arrependimento, e para sentir os flagelos de Deus para castigo nosso e os flagelos da punição política. A compaixão serve de aguilhão para a clemência, e a prudência na nossa conservação e no nosso governo é despertada pelo nosso temor; e quantas belas ações pela ambição? Quantas pela presunção? Enfim, nenhuma virtude eminente e galharda existe sem alguma agitação desordenada. 
Michel de Montaigne, in 'Ensaios'
Arquivo:
ECCE HOMO 

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