terça-feira, 15 de novembro de 2011

QUE O RIO VOLTE A SER NINHO DE SONHO DE LUZ*

(Photo: Folha On line)

*Com a licença de André Filho

Por isto tudo se danem os experts, as ongs e o “pessual dus direitos humanos”. O Rio sitiado só quer uma coisa: que o Bope e todo o efetivo policial “pegue um, pegue geral”! Só assim poderemos sonhar com uma paz duradoura.” Assim terminava um desabafo que fiz aqui no dia 27 de novembro do ano passado. No “Minha cidade sitiada” eu triste, indignada e medrosa contava sobre a semana horrível de carros queimados e pessoas feridas a tiros por toda a cidade numa reação de traficantes contra o endurecimento policial. Por isto a tomada da Rocinha exatamente 12 meses e um “Alemão” ocupado depois traz uma lufada de esperança de que desta vez a coisa seja séria.

Como já havia escrito antes, não sou expert em nada e muito menos morro de amores pelo Governador Sérgio Cabral. O papo aqui é de gente como a gente. E neste nível eu posso dizer que o Rio está melhor. Há um ano que milhares de pessoas não dormem tendo como fundo musical o barulho de balas traçantes. Isto signifca que há quatro estaçõe as crianças menores de diversas localidades não aprenderam a diferenciar um tiro de Ak-47 de uma 9mm. Significa que crianças maiores estão há quatro estações brincando nos topos do morro sem correrem risco de toparem com um cadáver perfurado de balas ou mutilado.E não estou exagerando não. Nas favelas cariocas o cheiro adocicado e forte de sangue coagulado de um morto há poucas horas é familiar. Como não é surpreendente a exposição de corpos desmembrados, alguns (de estupradores) com pênis na boca. Se alguém achou chocante o que escrevi, imagina para quem via estas cenas diversas vezes. Pensem no que elas poderiam fazer na cabeça de crianças.

Por falar em meninada, há cerca de 30 anos,uma foto de jornal chocou o Rio. Nela,um menino magrinho, magrinho de cerca de 10 anos segurava com dificuldade uma metralhadora. O apelido deste “vapor” (empregado do tráfico que sobe e desce a favela levando recados e drogas para os pontos de venda) era Brasileirinho. O primeiro o menor “oficialmente” recrutado pelo tráfico.

No mesmo período, um pouco antes, um pouco depois, uma menina era morta por bala perdida no morro do Tuiuti. Nova comoção na cidade. E ela foi tão grande que Chico Buarque fez uma canção*. O tempo passou e a violência fez o Rio se endurecer e não mais se chocar com os Brasileirinhos ou com as meninas dos diversos “tuiutis” da cidade. Só esporadicamente por causa de uma vítima ou de uma grande manifestação de força dos “chefões” dos morros da Zona Sul, é que se lembrava do tipo de vida que se tinha nas favelas. No mais, asfalto e morro aceitavam que houvesse “autoridades” paralelas. Bastava que elas não interferissem muito no dia-a-dia da cidade. Aliás, ainda hoje há muita gente que ainda pensa assim.


Em todas as favelas (desculpem-me o politicamente incorreto, mas não consigo escrever comunidade) pacificadas os moradores repetem o mesmo comportamento de desconfiança de que a polícia saia e os traficantes ou milicianos voltem. E estão certíssimos. Afinal, desde a democratização, o que mais aconteceu no Rio foi política “fantástica” para acabar com a violência na cidade. E o fim dela passa pela maior repressão ao tráfico. Outro fator em comum em todos locais em que houve a saída dos “donos” é a reivindicação da população de saneamento básico, cultura e educação. E novamente ela demonstra sabedoria. Somente quando o Estado cumprir com essas obrigações básicas é que as favelas se tornarão de fato bairros da cidade. Neste ponto, morro e asfalto têm que se unir para que o que se conquistou neste último ano não sucumba frente a interesses políticos ou à demagogia barata.

Uma Menina

(Chico Buarque)
Uma menina igual a mil
Que não está nem aí
Tivesse a vida pra escolher
E era talvez ser distraída
O que ela mais queria ser
Ah, se eu pudesse não cantar
Esta absurda melodia
Pra uma menina distraída
Uma menina igual a mil
Do Morro do Tuiuti

Uma menina igual a mil
Que não está nem aí
Tivesse a vida pra escolher
E era talvez ser distraída
O que ela mais queria ser
Ah, se eu pudesse não cantar
Esta absurda melodia
Pra uma criança assim caída
Uma menina do Brasil
Que não está nem aí
Uma menina igual a mil
Do Morro do Tuiuti

http://grooveshark.com/#/s/Uma+Menina/3ajhw7?src=5


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5 comentários:

  1. O trafico de narcóticos, nos entrincherado nos morros cariocas é uma industria que mobiliza mais de 8 milhões de reais por mês. A PM carioca se "nutre" das propinas dessa industria e assim duvido que a intenção das "pacificações" seja acabar com o trafico. O Nem da Rocinha só foi preso porque a propina para a PM local saiu de 20 mil por semana para 100 mil por semana e ele parou de pagar há umas 8 semanas.

    Com a favela "pacificada" já tem novo gerente do negócio, como tem novo gerente no Morro do Alemão e todos continuam felizes, drogados, traficantes e principalmente a PM.

    Lunarscape.

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  2. Lelezinha_0915/11/11, 20:15

    Maninha,só posso dizer isto:Parabéns!

    É mto melhor ler este seu texto do que tantos outros,cheios de "Oba Oba" pela ocupação da Rocinha!

    Vc foi mais fundo no problema;tocou no tripé:saúde,educação,segurança!

    Honestamente, vc sabe das coisas;é lúcida e tem uma visão global do problema, e não fica escrevendo "louvores" a uma coisa que, por eqto, está "cambeta", pq sem o tripé salvador, o banquinho vai estar sempre balançando, sem dar nenhum futuro seguro à população!

    Parabéns,Maninha querida! E que vc tenha sempre esta visão ampla e necessária, para ajudar "clarear" as mentes que nos governam!

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  3. Querida Mirtes

    Sou saudosista do Rio de 1956 que conheci e me deslumbrei menino pela primeira vez. Afinal o Rio sempre foi o amor à primeira vista de todo paulistano.
    Nesse tempo "favela" significava: morro, samba, malandragem a la Moreira, Bezerra, Dicró para nomear os "profissionais".
    Infelizmente, hoje aqui e agora, concordo plenamente com o Lunar e não vejo solução,enquanto o Brasil não achar sua solução como um todo.
    Enquanto isso, "eles continuam a promover, Rock in Rio, Ano Novo em Copa e Pacificação de Favelas.
    THE SHOW MUST GO ON.

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  4. Ninguém acaba com o tráfico em lugar algum do mundo. O que tem que se acabar, e é possível, é que os moradores das favelas continuem submetido aos desmandos dos traficantes. E com saúde, educação,saneamento e cultura se começa a se sentir cidadão incluído na sociedade. E daí se vem o desejo de liberdade.
    Tanto é assim, que os traficantes costumam conseguir o apoio da população lhe dando tudo o que o Estado lhe nega

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  5. Acabar não acaba, isso no mundo todo. Mas baixar a guarda nem que a vaca tussa. E pro combate vale tudo; chutar da medalhinha prá baixo igual zagueiro de usina. Bandido bom é bandido morto: seja traficante ou colarinho branco.
    Favela é lugar de gente de pouca posse e não de bandido. Limpar suas ruas e vielas sem fazer espetáculo midiático é o m;inimo que se pede dos representantes do estado, em todos os seus poderes.

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