quinta-feira, 10 de novembro de 2011

SAÚDE PÚBLICA: A INSANIDADE!




Parece que se deu pouca importância ao discurso da presidente antes do JN Globo, em rede nacional, também pudera, tanta demagogia e blá-blá-blá em cima dos escândalos republicanos da hora ninguém agüenta mesmo. Algumas coisas me chamaram atenção e gostaria de compartilhar isso com vocês.
 
Imaginem que hoje, estou com 54 anos de idade, 30 anos de formado em medicina, tendo passado 7 concursos públicos e assumido 2 matriculas onde trabalha há mais de 20 anos. Parece uma dedicação ao serviço publico, e é! Aqui quero adiantar que são milhares de médicos na mesma situação que eu. Bem, estou atualmente vivendo o que é realmente a tal “parceria” com “setor privado” e posso lhes garantir que é pura enganação.
 
Vamos aos fatos:  uma Organização Social foi contratada para “gerir” o hospital onde trabalho e vieram estudar a situação em julho. A fofoca intensificava-se nos corredores a respeito do modelo de gestão e o que seria dos funcionários estatutários (concursados). A firma estudou junho, julho, agosto e setembro, enfim, 4 meses para entrar no hospital em 1º de outubro.

Nem a Secretaria de Saúde, nem a firma emitiu qualquer pronunciamento oficial a respeito da mudança de gestão, deixando mais de 1200 funcionarios concursados “no escuro”. Os funcionários de apoio, de uma tercerizada simplesmente pararam de receber e muitos procuraram outros empregos, deixando o hospital sem maqueiros, recepcionistas, secretárias, faxineiras etc.,  gerando um prejuízo enormes no atendimento aos pacientes e sobrecarregando os já sobrecarregados enfermeiros, médicos e técnicos.
 
Aos médicos foi dito, 30 dias após a mudança de gestão, que nenhum interessava à firma e que se alguém desejasse, era para pedir licença SEM vencimentos e aí, sim, poderia-se conversar. Quem não o fizesse, seria colocado a disposição e a Secretaria Municipal de Saúde relotaria o funcionário (80% das praças de trabalho da prefeitura pretencem à terceirizados). Substituições eram proibidas e trocas de plantão nem pensar. Com isso, uns 40% do efetivo médico desapareceu do hospital, SEM reposição pela firma! Pensem bem, uma firma estuda 4 meses e não tem “banco de recursos humanos” para repor os que foram colocados em disponibilidade... Resultado: bem, o resultado é esse mesmo; equipes reduzidas, aumento da demanda e mais médicos saindo do hospital. Situação insustentável para médicos e pacientes. A firma já recebe volumosos recursos da prefeitura e mesmo assim, a emergência fecha intermitentemente.

Os recursos humanos treinados e capacitados foram descartados e levará de 4-6 meses para treinar novos funcionários de apoio. Pelo visto o prejuízo aos pacientes vai ser maior porque nessa semana dispensaram instrumentadoras e técnicas de centro cirúrgico. Desde que a firma assumiu, o mapa cirúrgico caiu pela metade!
 
Voltemos a fala da presidente. Já vimos que o discurso é demagogia pura, talvez pelo fato de as ONGs estarem sobre mira cerrada do MP e da PF, resolveram mudar a rota da corrupção e agora vão enfiar dinheiro em “parcerias” e a roubalheria continuará. Com o agravante, o médico está pagando o preço. Pois em momento algum a presidente falou em aumento de salários ou melhorias salariais.
 
O tal decantado estatuto do SUS está sendo violado e na verdade é do desejo da Presidência da República terceirizar o atendimento público com as tais parcerias ineficientes e demagógicas. A violação do estatuto está aqui:

Lei Federal nº 8142, de 19 de dezembro de 1990, que “Dispõe sobre a participação da comunidade na gestão do Sistema Único de Saúde(SUS) e sobre as transferências intergovernamentais de recursos financeiros na área da saúde e dá outras providências”, onde ficou estabelecido que:
“Para receberem os recursos, de que trata o art. 3° desta lei,os Municípios, os Estados e o Distrito Federal deverão contar com:
VI - Comissão de elaboração do Plano de Carreira, Cargos eSalários (PCCS), previsto o prazo de dois anos para sua implantação.

Após 21 anos NADA foi feito e nem o MPF interveio. A vasta maioria dos municípios continua sem Planos de Cargos e Carreira e tem “Gestão Plena”.
 
Art. 5º - Os princípios e diretrizes que norteiam o PCCR são:
IV - Concurso Público - é a única forma de ingressar na
Carreira da Saúde, resguardando os Servidores estáveis, nos termos da Lei.
 
Vou tentar resumir a “ópera”: o grande problema do SUS é a falta de continuidade da chegada de recursos materiais: lençóis, remédios, compressas, gaze, esparadrapo, soro, etc etc. A vasta maioria dos materiais vem superfaturada e é controlada por máfias espalhadas pelo país. Basta um prefeito ter um contratempo e cortar as verbas dos fornecedores e aí vamos nós, médicos, nos virar com um muito pouco para atender os pacientes. Recursos humanos têm e salvo raras exceções são razoavelmente administrados. Digo ainda, as exceções e aqui leia-se gazeteiros, são acobertos por políticos e administradores das unidades. São “peixes” de alguém, assinam freqüência e deixam 20% do salário com os administradores. O resto do “bolo” de médicos levam então a fama.
 
Voltando ao discurso da presidente, ela disse: vamos implantar núcleos de eficiência e qualidade nessas 12 unidades iniciais com auditorias permanentes no atendimento, nos gastos dos insumos, nos recursos humanos etc etc. Presidente: vai ter auditoria permanente nas comissões de licitação?  Vai ter auditoria permanente nos gastos do Fundo Nacional de Saúde? Vai ter auditoria permanente nos pagamentos aos “parceiros”? Presidente: quando diz que o ministro Padilha “pegou o touro à unha” a senhora quer dizer que o ministro acabou com as máfias dos fornecedores?
 
Quem leu a minha série sobre o SUS, aqui, sabe que expus os problemas, de forma nua e crua, e vou continuar a defender a minha profissão contra esses ataques demagócicos desnecessários.
 
Parece até que alguém leu as minhas exposições aqui, porque “Melhor Em Casa” é apenas um pedido desesperado de manter o doente LONGE dos postos de saúde e dos hospitias. Isso significa que os Programas de Saúde da Familia não estão atendendo a demanda.

Lunarscape é o músico dinamarquês-carioca que é médico por incoincidências da vida.

5 comentários:

  1. Jorge @atakardiac10/11/11, 14:36

    Chocante Lunar. Minha Mãe é enfermeira aposentada e sei bem o que se passa desse lado da moeda. Só o fato de Lula estar no Sírio já evidencia o descaso do poder público destepaiz.

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  2. Depois da doença do ex-presidente surgiram novos pesos e novas medidas. Mas o final todos conhecemos: pizza.

    Isadora
    @isa_lerome

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  3. Mercia Maria Almeida Neves10/11/11, 19:29

    Acompanhei a série do médico.Fala de ser humano,profissional téorico prático com doses de grande realidade.Com fatos, ninguém por mais letrado que seja, por mais conhecimentos científicos que possua pode,(deve) rebater.
    Pois se o dr. descreve tão bem as situações: pacientes,profissionais,leis burocráticas que regem o país,e tudo o mais que o acompanha...porque essa classe que se instaurou nas nossas vida,invadem nossas casas, insistem em dizer,mostrar o contrário? e porque essa cegueira em todos os níveis? o médico acima tem super poderes? é visão mediúnica? é terceira visão? Não consigo entender, não consigo explicação plausível para alienação do povo...político é cadeia mesmo.Isso é morte,é crime.
    Entendo a insatisfação.

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  4. Amigos e amigas, trabalho na área publica (SUS) desde a minha formação. Sim trabalhei no setor privado por alguns anos e fui muito bem sucedido, Tanto é que a Golden me deve mais de 40 mil reais (valor de hoje) e a Amil mais uns tantos. Tudo isso de contas "glosadas", mas serviço executado ! Justamente por recusar a "medicina de convênio" é que fiquei no SUS.
    O que está acontecendo hoje é a total desvalorização do funcionário publico serio e competente. Talvez peco por não babar ovo de politico. Mas pelo outro lado, sou super bem quisto por 95% dos meus pacientes. Sim sou daqueles que tem ligação direta com aqueles que realmente precisam, inclusive muitos tem o meu numero de celular (para o desespero da minha mulher).


    Lunarscape

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  5. o ministro esteve esta semana no rio inaugurando este programa no miguel couto, aí o canázio da rádio globo fez a seguinte pergunta: como o minsitério da saúde faz um programa como este se não consegue nem gerir os hospitais federais do rio? O federal de jacarépaguá está sem médico, sem instrumentista e sem enfermeiro, não seria melhor primeiro o senhor arrumas a sua casa? o ministro balbuciou alguma coisa e se mandou...
    dai só se tem que concordar com o luna que melhor em casa é sim conveniente para os governos

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