segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

CASOS DE AMOR AO ROCK



Não é segredo para ninguém que sou amante do rock, já há 40 anos. Aconteceu uma coisa que contando, ninguém acredita. Vamos aos fatos então:

Saindo do trabalho, peguei a Rodovia Washington Luiz sentido Rio e pouco depois uma moto grande encostou perto do meu lado e sinalizou para parar. Pensei, "putzz polícia rodoviária?" Mas não, era um maluco “escudado” de motoclube. Bem, escudado, não vai me assaltar, e parei! O camarada desceu da moto e veio para a janela do carro. 

-Amigo, mil perdões, mas aonde você mandou fazer a capa protetora do estepe ? 
-Hã ?
-Cara, essa capa tua é demais e queria uma também.
-Pô cara, comprei na internet, mas se você me der seu email eu te mando o link!

A essa altura eu não estava entendendo mais nada, e mesmo assim ria da situação, era inusitado demais, coisa de maluco mesmo. Peguei caneta e papel enquanto o cara falava de quanto ele amava o Pink Floyd (é uma capa protetora de estepe que tem o logotipo do disco The Dark Side Of The Moon do Pink Floyd). Nessa parte eu ria e concordava porque provavelmente a minha paixão pelo Pink Floyd seja tão grande quanto a dele. 

Mas vamos em frente. Ele se apresentou: “Renato” e mandou o e mail. Quando ele complementou o endereço eletrônico, parei de escrever e já ria escancaradamente. Olhei o cara nos olhos e disse, amigo, nem preciso do teu mail, já tenho você adicionado no meu FaceBook... Foi a vez dele de rir e perguntar: "Como assim"? "Pois é Renato, sou amigo e aluno do Ronald e pelo que parece vamos estar juntos em São José do Vale do Rio Preto, em 2 semanas. Pelo que li, você vai abrir o show da gente."  Ele então riu e disse: "Cara você é do Little Rock”? Confirmei e ele mais uma vez olhou incrédulo para mim e disse: "Cara, que coincidência, né?"

O pior estava pra vir: totalmente despudorado e sem saber com que na realidade estava lidando eu mandei essa: "Renato, você toca o set todo de Pink Floyd?" Ele respondeu que sim. "Pois é, o que você acha de tocar o In The Flesh com a banda Little Rock? Pelo que sei o seu set acaba e o nosso começa, você é só o “Midi” e a sua guitarra e voz, pensa nisso." O Renato arregalou os olhos e disse meio que balbuciano: c"laro vamos fazer acontecer, mas me mande o link do site da capa pelo Facebook e ai a gente vai se falando."

O que eu não sabia é que o Renato é o Diretor musical do evento de São José e vários outros também. O que eu não sabia é que o Renato é uma lenda viva no motociclismo nacional! 

Nos nos despedimos e seguimos nossos caminhos. Deu mais ou menos uma hora e o meu professor de musica me liga: 

- Caraca maluco, o que foi que tu arrumou? 
- Sei lá cara, faço merda o dia interio, mas qual foi ? 
– Rapaz. o Renato me ligou e me mandou tirar o In The Flesh do Pink Floyd e vamos tocar isso com ele no palco em São José. Ele disso que esteve contigo e que foi sugestão sua! É isso mesmo? 
– Claro Ronald, mandei meio que sem querer, querendo. Vi a brecha e ele gostou. Fiz mal?
O Ronald me disse então quem era o Renato Rio Blues e ai me encolhi na cadeira do carro, deu frio no estomago e me recriminei por ser assim meio que atirado demais. 

Bom, tínhamos 10 dias para preparar tudo, e assim começamos a arregaçar as mangas. Fiz a partitura no Sibelius e mandei para o Ronald, ele corrigiu e me mandou de volta. Ficava ensaiando até de madrugada, e marcamos os ensaios nossos, sem o Renato. Digo de coração, na primeira passada da música, tiramos ela toda, sem ninguém errar, ficou DUCA.

Pronto, fomos para Teresópolis e íamos tocar as 22:30, depois do show do Renato. Como sempre, chegamos meio que em cima da hora e não pudemos passar o som. Mal consegui colocar os instrumentos no palco, mas enfim, a banda se posicionou com os instrumentos e deixamos o Renato se preparar para o show dele. 

Aqui tenho que abrir um parênteses: um músico que dispensa outros músicos, tem as suas razões para tal, que quando assume tocar com “midi” é meio que desprezado pelas bandas. Ledo engano quando se fala de Renato Rio Blues. 

O Renato é uma simpatia de pessoa, e tem um carisma que poucos têm. Ele cativou a platéia e em pouco tempo fazia e acontecia. O público ficou na mão dele do início ao fim. Ele terminou o set e informou que era um intervalo de 10 minutos porque a Little Rock faria a “saideira” com ele. Pronto! Tínhamos 10 minutos para passarmos o som, coisa que normalmente leva meia hora, dado a vaidade de todos os músicos da banda. Quando me dei conta, tinha montado o meu Hammond e o meu piano, espremidinho entre o controle de áudio e um mega auto falante do retorno do baixo! Gente, passei a noite toda levando porrada nas costas! 

Tudo pronto e de repente: 1, 2, 3, 4! Pronto, não tem mais volta...no terceiro acorde o público já sabia de que se tratava e pulavam e aplaudiam freneticamente. Entre olhar a partitura e olhar o público delirando, confiei no que tinha ensaiado e mandei ver. Fui levando sem errar e feliz vida que estava no compasso certo. Na parte da harmonia de vozes, saio do órgão e suavemente sigo no piano. Volto para o Hammond Organ e ligo o simulador Leslie, agora é pauleira e fazer o publico delirar. Termina a música com uma cacofonia onde cada um se vira e espicha o som. O Renato recolhe o material dele e sai do palco de fininho, e nós seguimos com o Jumping Jack Flash dos Stones. 

Aqui, passam as imagens da destruição que São Jose Do Vale Do Rio Preto sofreu com as chuvas de Janeiro. Poxa, passei pela entrada, 11 meses depois e ainda havia todos os sinais de destruição, pouca coisa foi feita por aquela comunidade. Mas a receptividade e a alegria estampada nos rostos da multidão à frente do palco de mostrou que eu e a minha banda estávamos dando alegria e felicidade a um povoado carente de tudo, especialmente carinho e cultura. (Soube depois, que no dia anterior não tinha tido evento e nem bandas porque a Ampla não tinha ligado a luz da cidade!). 

Quando ouvi o In The Flesh pela primeira vez na minha vida, lá pelos idos de 1979 eu sabia que um dia ia tocar isso. E toquei, 32 anos depois. Posso dizer que todas as minhas fantasias estão se realizando e hoje, com 54 anos de idade, sou realizado. Obrigado meu Deus, Obrigado Ronald, obrigado Renato Rio Blues e obrigado Little Rock.

Lunarscape é o músico dinamarquês-carioca que é médico por incoincidências da vida.

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6 comentários:

  1. Lunarscape, o que dizer? Paixão pura! Um texto e uma história DUCA!

    Parabéns!

    Abraços sempre afetuosos.

    Fábio.

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  2. Casal 20, viver isso é que não tem preço. Uma experiencia fantástica.

    Bjssss

    Lunarscape

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  3. Menino, que maravilha! você é duca!!!!!!

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  4. Um dia, verei ao vido e a cores, um show do Doc!

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  5. Essa ano foi um ano dificilimo em termos de trabalho e "sobrevivência" mas tenho que admitir, valeu cada minuto vivido. Realizar um sonho é algo que não tem preço.
    Há dois anos botei na cabeça que iria parar de "consumir" musica e passaria a "fazer" musica. No tempo total tive aulas por 18 meses, aprendi teoria, harmonia, campos harmonicos, escalas maiores, escalas menores, pentatónicas, tríades e tetrades.
    Em março surgiu a oportunidade de tocar em banda, e me agarrei á isso. Estreia em barzinho local, e com duas musicas. Hoje já estou tocando em barzinho praticamente toda sexta ou sábado isso quando não estou em evento de motociclista o que já é uma vez por mes.
    Para muitos, sou aquele "tiozão" ou "corôa" Irado que toca orgão insanamente. (Só rindo !) Me divirto e vou conhecendo pessoas incríveis.
    Sim, Velvet e Mirthes, anotem ai: Rio das Ostras 3.a Semana de Março, detalhes a seguir !
    Beijos

    Lunar

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  6. Sandra Sallee19/12/11, 23:57

    Ai que vontade de ir no show do nosso Rockeiro ! Se eu me organizar talvez consiga . E seria uma otima chance de encontrar essa turma querida . Tenho que me organizar . Vou continuar repetindo ... Doc , You are AMAZING !!!!!!!!

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