segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

A CHALAÇA POLÍTICA


Via de regra, todo agente político diz sê-lo para servir à nação e por "amor ao povo". Em nome desse amor ao povo foram forjadas as mais sangrentas ditaduras da história mundial. Os maiores tiranos justificam suas ações pelo mesmo motivo. São a representação clara, óbvia, da hipocrisia. Em regimes democráticos, como cá nessas terras morenas, a distorção é um pouco mais sutil. Por interesse do próprio "amor" a política não é feita para que o povo amado saia do lugar em que se encontra. 

Estabeleceu-se como padrão de linguagem para se comunicar com o povo, o que eu chamo de conversa mole: discurso cheio de sensibilidade, generosidade e beijos no coração. Não há mais grandes oradores, dentre os políticos detentores de mandato, com discurso combativo, franco. Nem ouso desejar um Cícero ou um Rui Barbosa!  Um orador razoável bastaria. A cena hoje é uma mesmice só. Sons ocos de tambores retóricos, para conquistar a confiança do povo, de forma a ouvi-los de boca aberta. Assim, nada melhor do que usar das palavras dele próprio, "populares", lembrando-se de sempre cercá-las de auto-estima. Quanto mais boca-aberta for a audiência, mais vai acreditar que as palavras foram inspiradas nos seus próprios sentimentos. É a eterna (e ingênua) crença que o povo tem de sua incomensurável sabedoria....

Atualmente, isso é possível até nas redes sociais. Mesmo no (relativamente) limitado mundo dos 140 caracteres. Hoje, usando o Twitter como fonte de pesquisa, naveguei por inúmeros perfis fora do meu círculo, que não são os minha própria timeline. E não é que consegui me espantar com a "qualidade" de posts em perfis cujas bios me enchem de medo e sentimento de inferioridade, eu que nada sou, por tamanha qualificação profissional, acadêmica e pessoal divulgadas? São essas pessoas que "consomem" a linguagem afetiva e rasa da comunicação política (virtual ou não) nos nossos dias. São essas pessoas que se sentem realmente importantes porque estão realmente convencidas de que são elas que influenciam, são elas que ensinam, são elas que "formam a opinião" dos políticos, eleitos por elas mesmas. Pior que são.

É um ciclo desanimador. Porque não há mais, há um bom tempo, político biônico. Todos são eleitos. Todos recebem votos. As diversas esferas da representação via voto nestepaiz são, tão somente, a cara de nossa sociedade. A cara, a voz, a linguagem, a (sub) cultura, o perfil, enfim, do "povo". Inclusive, sua moral. Se a política pobre destepaiz só piora, ela tem espelho. Somos nós, e ainda que alguns poucos escapem dessa total estupidez, é densa a atmosfera de idiotices de mau gosto, grosseiras e zombeteiras, que nos cerca. 

É esse o povo que o político dos dias atuais ama. Tanto que, é a minha conclusão, não posso mais alegar que a abnegada expressão "amor ao povo" seja mentirosa. Como não amar um povo perfeito para suas (duvidosas) intenções? A chalaça política somos nós!

(Ilustração: Devil, de Hieronymus Bosch)

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2 comentários:

  1. Eu, se fosse política eu dependesse da política, estava já a encomendar uma enorme sondagem nacional para avaliar os perfis do mundo dos 140 caracteres. O que tem de 'talento' desperdiçado no microblog não é brincadeira. Se calhar, essa gente teria um discurso diferente. Ou não! Colocaste muito bem. A política destepaiz é o reflexo do povo brasileiro. Verdade seja dita, houve um recuo da dimensão moral da gestão política e administrativa destepaiz. O pessoal parece dominar o público. O sistema em vigor na Banânia, é o feudalismo. Mas é o que há! Afinal, a política destepaiz e o povo brasileiro é o que podemos chamar de 'gêmeos espelhados': um é canhoto, o outro é destro.

    Parabéns pelo artigo. É de um primor surreal!

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  2. o maior exemplo do que é o povo brasileiro é mostrado a cada cheia de rio: pessoas se negando a deixar a casa quase submersa por medo de roubo. Sim, neste país se rouba até de quem está desabrigado.
    aí, como reclamar do político?

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