domingo, 22 de janeiro de 2012

HOLLYWOODIANDO O RACIOCÍNIO



Árvore da Vida é revolucionário ou apenas o filme mais chato da década? A Pele que Habito é a obra-prima de Amoldóvar ou um grande engano? Meia-noite em Paris, o menos woodyiliano dos filmes de Allen, pode ser o que melhor mostra a sensibilidade do diretor nova-iorquino? Santa Paciência sobre o mulçumano que se descobre não só ser adotado como também ter judeus como pais biológicos é ou não o grande injustiçado da safra 2011? Foi depois de passar a noite discutindo estas questões transcendentais que me peguei saudosa do tempo em que se discutia tudo, e não só cinema, de uma maneira leve e amigável.

Eu não sei em que momento o mundo ficou mais hostil a troca de idéias entre pessoas de visões ou gostos diferentes, mas decididamente, isto o tornou menos sadio. As pessoas não querem mais o debate e sim a imposição. De todas as maneiras querem anular a lei da atração dos opostos. Preferem o velho conceito do deixar como estar para ver como fica, ou aceitam no máximo, mudar pequenas coisas para que as grandes permaneçam.

Enquanto Europa e Estados Unidos fazem de tudo para manter os dedos com pelo menos um ou outro solitário, aqui ainda há muita gente achando o máximo comprar pirita a preço de platina. E, aí de quem tentar alertar que o apelido dela, ouro de tolo, é auto-explicativo, será taxado de invejoso, mal-humorado e até antipatriota...

Ao abordar a existência como um ciclo interminável de recomeços Árvore da Vida tenta reconfortar um país que se vê perdido. E de alguma maneira aponta o próprio american way of life como o caminho. E, por há muito eles trilharem este caminho fica mais fácil traçar a rota. Mas sem tradição no caminhar e tentando a cada dia um novo roteiro, como o brasileiro poderá ir em frente se não aceita nem discutir as opções apontadas no mapa?

Pedro Amoldóvar ao decidir fazer um filme, a princípio, totalmente diferente de tudo que fizera, chamou Antônio Bandeiras. O mesmo Bandeiras que, adolescente, por ele foi lançado quando também começava a carreira sempre surpreendente de diretor. Sim, por que nada melhor que tatear pelo novo com o apoio de velhos conhecidos. Enquanto renegar o passado e considerar que o Brasil só começou a dar certo em 2002 a nação só terá episódios de sucesso. Sem conhecer o passado não se constrói um bom futuro. O risco de ser comprar Carlota Joaquina como história oficial é altamente prejudicial.

Woody Allen se reinventa através de um novo Rosa Púrpura do Cairo. O doce surrealismo da vez é sobre um roteirista em crise e, por que não dizer, mala, apaixonado pela Paris dos anos 20 que chega à cidade luz onde viverá uma grande aventura que mudará tudo em sua vida. Mas a transformação só virá após ele constatar o óbvio: de que tudo tem lado bom e ruim e sem aceitar isto a felicidade não será possível. Mas, no dia-a-dia brasileiro, como pode se ter esta noção quando parece ser obrigatório o uso de óculos com lentes cor-de-rosa?

Talvez eu esteja viajando mais na maionese do que o diretor do Árvore da Vida, mas para mim, se tudo isto que escrevi não bastasse, a cereja do bolo deste estranho tempo que vivemos é a quase que total falta de humor. Ou melhor, mais do que ausência parece que há uma brigada contra o humor. Isto porque se sabe que o humor ao expor falsas verdades e ao quebrar dogmas se torna revolucionário Ao mostrar, entre risadas, que as qualidades de um homem transcedem o fato de ele pertencer a esta ou aquela religião, Santa Paciência vem lembrar ao Brasil que partido algum ou alguém sozinho é o dono da verdade, da moralidade e da salvação. E quer saber de uma coisa? Como o palhaço vou continuar usando o humor para denunciar que o jogo das sombras por tudo pelo poder não é um conto chinês nem muito menos, uma doce mentira. Até porque sei que muitos também não acham esta missão impossível.

Mirtes Guimarães, jornalista mireiroca que traduz o cotidiano para o blog.

Arquivo:

(Nota da Velvet: a imagem não é, desta vez, ao contrários dos artigos anteriores sobre cinema, de nenhum dos filmes citados pela Mirtes. É um promo de Clube da Luta. Pela ideia.)

7 comentários:

  1. QUERIDA MIRTES

    SEMPRE PRIMOROZA EM SEUS TEXTOS.
    PERDER O HUMOR É MORRER UM BOCADINHO POR DIA.
    O HUMOR NOS TRAZ A VERDADE DOS FATOS MUITO MAIS CLARAMENTE QUE TODOS OS HOMENS ENGRAVATADOS QUE SE DIZEM DONOS DA VERDADE.

    Bjs
    Marisa Cruz

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  2. Querida Mirtes Guimarães, jornalista mireiroca;

    Realmente uma viagem muito agradável ler seus textos sobre cinema aqui no VV, e também muito revelador. Realmente são tempos estranhos os que vivemos. Há algo errado, mas quando parece que vamos entender, quando parece que vamos agarrar, a coisa escapa por entre os dedos.
    O espírito de nossa época talvez seja realmente mais palpável com um boa risada ou com bons textos que a pretexto de falar sobre cinema, fale sobre a gente.

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  3. Mirtes Guimarães, jornalista mireiroca;
    Caramba, depois de enviar foi que percebi quantos "realmentes" tem no texto, mas realmente foi sem querer, hehehe.
    bjus

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  4. Esquenta não Decicote o importante é que realmente você é uma pessoa realmente fofa! (rs)

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  5. Lelezinha_09 (Zinha)22/01/12, 17:52

    Minina! rsrs Vc se superou falando em vida-cinema!
    Só este final:"Como o palhaço vou continuar usando o humor para denunciar que o jogo das sombras por tudo pelo poder não é um conto chinês nem muito menos, uma doce mentira. Até porque sei que muitos também não acham esta missão impossível." Clap clap clap!
    Fantástico!
    Adorei!
    Beijins!

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  6. Mirtes, não há o que elogiar, porque os comentários ao teu texto já foram justíssimos. Mas, olha, não consigo calar: PRIMOROSO!

    Vi também o do Almodovar e vi quase sem querer, quase despropositadamente, daí, acho que, quando o filme terminou, fiquei passado! Olha, que filme bom para se conversar por toda uma noite. Quanto aos outros que você citou, já vou atrás para conferir tudo o que você escreveu.

    Abraços sempre afetuosos.

    Fábio.

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  7. Sandra Sallee07/02/12, 00:02

    Bato palmas pra vc querida amiga !!!
    Saudades dos tempos que a gente assistia o filme e conversava sobre ele . Meu ultimo filme de conversa foi o " Piano " E o papo foi num bar de Santa Teresa .
    Saudades .
    Obrigada por me reavivar a memoria .
    Bjs

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