terça-feira, 31 de janeiro de 2012

O SILÊNCIO CÚMPLICE

“O roubo de milhões, enobrece os ladrões.” (Marquês de Maricá)

Sei que a velha frase sobre não haver nada de novo sob o sol é uma das frases mais verdadeiras que existem. Podemos muitas vezes nos surpreender com algo, mas não quer dizer, absolutamente, que isso nunca aconteceu. Em nossa breve passagem pela Terra temos apenas o campo de visão parcial: nunca havia acontecido é com a gente. Certo, mas isso quando são coisas individuais, histórias particulares, por mais que tenham acontecido a outros, sempre têm sabor de novidade pela proximidade e características únicas das pessoas ao nosso redor. Cada um lida de formas diferentes com as mesmas questões, e muitas vezes há mais de uma resposta para cada problema. 

Infelizmente, o mesmo não se dá com a História. Fatos históricos que se repetem, têm características de tragédia ou farsa, ou os dois juntos. Vemos as nações e povos cometerem os mesmos erros e sabemos que o final nunca poderá ser muito auspicioso. São como pesadelos que se repetem com poucas variações e com os finais diferentes, apenas na forma, e dos quais a humanidade nunca consegue acordar. Sempre acabam muito mal. Essas são as impressões que tive ao ler uma reportagem da revista Veja sobre o livro do historiador alemão, Robert Gellately: “Apoiando Hitler: Consentimento e coerção na Alemanha nazista”, lançado em julho de 2011 no Brasil.

O que perturba os seres que ainda possuem algum traço de independência intelectual são as semelhanças incríveis em atitudes entre sociedades e povos tão diferentes como os alemães e os brasileiros. A tese do autor, analisando milhares de documentos, revistas, fontes de informação e que, ao contrário do consenso geral que vigorou após a segunda guerra mundial, os alemães tinham informações suficientes para saberem o que se passava nos campos de extermínio e com os judeus, ciganos e outras minorias perseguidas pelo nazismo, apenas não queriam saber. É mais ou menos parecido com a situação das pessoas que confrontadas com as notícias de roubos e desmandos no governo brasileiro noticiadas constantemente e comprovadas com farta documentação e testemunho, argumentam que não gostam de política, principalmente se por alguma razão, ou apenas por opinião, eles forem favoráveis ao governo ou apenas não quiserem pensar sobre o assunto.

Imaginam que são “efeitos colaterais”: se está bem para ele, não deve se meter, que todos fazem o mesmo, e que, se dizendo (e sendo) ignorante sobre o assunto, não será obrigado a tomar um posicionamento. É o conhecido: “eu não sabia” de nosso ex(?)-presidente. São procedimentos retóricos que procuram evitar uma incompatibilidade que obrigaria a uma tomada de consciência e um posicionamento sobre o assunto, uma forma de fingimento. Chain Perelmam em “Tratado da Argumentação – A Nova Retórica” – afirma que a ficção, a mentira, o silêncio servem para evitar uma incompatibilidade no plano da ação, para não ter de resolvê-la no campo teórico. Exemplificando, seria como uma antiga regra japonesa (não sei se ainda é assim por lá) que obrigaria a receber os visitantes somente vestido com “roupas decentes”. Se o agricultor é surpreendido no campo com as suas roupas de trabalho, o recém chegado fingirá não o ver, até o momento em que tiver trocado de roupa, e isso poderá até mesmo ser feito no mesmo lugar onde o visitante está esperando. 

Esta simulação ou fingimento permite a resolução de uma contradição, aceita pelas partes, pelo costume ou pelo sistema social, diferente de quando a simulação é apenas unilateral e, então, estaremos lidando com uma mentira. Os que costumam não tomar posição em relação a assuntos que acham desagradáveis são obrigados, com frequência, a mentir a si próprios e aos outros. 

Esta é a base da convivência entre os petralhas e seus eleitores e apoiadores. Claro, isso se refere apenas às pessoas que fingem que nada está acontecendo, independente de suas razões e status, desde que “tudo está bem” para eles, não importa o preço que os outros ou o pais tenham de pagar. Temos, é claro, assim como havia no nazismo, os que realmente acreditam no que dizem os petralhas e seu governo, e que, realmente acham que estas coisas, como roubos, desmandos, impunidade e milhares de dinheiro em contas são apenas invenções, mentiras do PIG, que hoje serve para justificar qualquer descoberta de práticas não-republicanas dos detentores do governo. Existe uma massa que realmente pensa ver nas noticias uma conspiração de poderosos, sem atinar que, aliada ao poder que há no governo, há uma manipulação dos grandes financistas, sem atentar que nunca os banqueiros e especuladores ganharam tanto dinheiro. Isso faz lembrar uma pequena história que uso para finalizar este texto:

Um fanático de ciências ocultas apoquenta Bernard Shaw:
- “Ontem à noite a sessão durou três horas; nós estávamos todos cansados, mas finalmente a mesa se mexeu”.
“Não é de se espantar, – diz Bernard Shaw -, é sempre o mais inteligente que cede…”

Denilson Cicote é o @deci_cote, que fala de "humor e política na medida certa e às vezes na medida errada, já que o homem é a medida de todas as coisas."

(Nota da Velvet: post publicado originalmente no blog Verbo e Paixão)

Arquivo: 

11 comentários:

  1. Excelente análise!
    Sem falsa modéstia, fez-me lembrar um pouco de mim mesmo e das minhas idéias, não muito aprofundadas, apenas delineadas neste blog, sobre o autoengano!

    ResponderEliminar
  2. Caro BSchopenhauer.

    Fiquei lisonjeado. Obrigado meu caro.

    ResponderEliminar
  3. opcao_zili31/01/12, 13:50

    Excelente, meu caro amigo.
    O brasileiro, de fato, está agindo como os alemães na época de Hitler.Só não podemos ficar quietos para não lamentarmos mais tarde. Seremos uma gota no imenso oceano do protesto mas, se nos calarmos, esse oceano será menor, com certeza.
    Vamos em frente.O Brasil precisa dessa purgação ou a população "desinformada"não acreditará nos desmandos desse grupo que hoje governa.Depois de ouvir aquele jogador Neto, dizer que o ex foi o melhor presidente que o Brasil teve, nada me espanta.
    Nada ficará escondido; tudo aparecerá. Eu confio na Palavra de Deus.

    ResponderEliminar
  4. Leila Da Rolt31/01/12, 13:55

    O pior cego é o que nem quer ver..!
    Obrigada pelo instigante texto.

    ResponderEliminar
  5. Crivellari_MG31/01/12, 14:00

    Um perfeita analise do contexto brasileiro..

    ResponderEliminar
  6. CARO DENIS

    SEU TEXTO ME LEMBRA OUTRA DÁDIVA DOS QUE VIVEM ADMIRANDO SEU PRÓPRIO UMBIGO: ESTOU VENDO O CÉU CINZA MAS DIZEM QUE O MUNDO É COR DE ROSA ENTÃO...O MUNDO É COR DE ROSA!!!

    Marisa Cruz

    ResponderEliminar
  7. Cara Edna.

    Infelizmente, e estou tentando escrever isso em um outro texto, tenho uma certa incredulidade sobre se poderemos sair deste atoleiro moral em que o Brasil se meteu. Para que algo assim acontecesse, teríamos de ter uma oposição, e não uma oposisim. Espero que acordem, mas nós já esperamos há mais de 10 anos e parece que só piora. Nem por isso devemos desistir.

    ResponderEliminar
  8. Excelente texto! O que há é realmente uma comodidade com relação ao status da sociedade. Se as coisas vão bem - ecomonicamente falando - que se dane o resto. As barbaridades nazistas atingiram seus fins pelo discurso de ódio contra as minorias. O mesmo discurso de ódio contra quem se posiciona contra os desmandos do governo é insistentemente martelado na cabeça das massas. Oposição no Brasil hoje em dia é composta só por quem seria contra o Brasil: é assim que pensam e propagam os militantes teóricos do partido único no poder.

    ResponderEliminar
  9. Não sou crédulo de que o Brasil será algum dia diferente do que é. Ao menos, para melhor.

    ResponderEliminar
  10. Caro Amigos(ops, isso é nome de revista petista, desculpe.vou tentar de novo)
    Meus queridos amigos.

    E agora, como desafio lançado por Gilberto Caixão de Carvalho de disputar a mente e alma das pessoas a tapa com correntes evangélicas que não se ajoelharam em frente ao belzebu barbudo a coisa tende a ser pior. Querem um governo e uma religião "universal", e como disse o fionescio, é o discurso do ódio.

    ResponderEliminar
  11. Lelezinha_09 (Zinha)31/01/12, 20:24

    Meu amigo:
    Tomei a liberdade de "afanar" um trechinho do que comentou Filonescio:
    "O que há é realmente uma comodidade com relação ao status da sociedade. Se as coisas vão bem - ecomonicamente falando - que se dane o resto."
    Infelizmente esta é a postura do povo brasileiro...
    Fico tão frustrada que nem sei se acredito que ainda sairemos desta ditadura petralha!Vai ser mto difícil,porque eles lutam c/ as piores armas:violência e desonestidade!
    Gde abç

    ResponderEliminar