domingo, 25 de março de 2012

É DOMINGO - O CAMINHO CERTO DA PAIXÃO E SEU CONTRÁRIO

 "O ser humano não consegue viver sem paixão. E a paixão é o estado no qual todos os seus sentimentos e ideias se encontram no mesmo espírito. Tu podes pensar, quase ao contrário, que é o estado em que um sentimento se torna todo-poderoso, um único sentimento que atrai a si todos os outros - um arrebatamento! Não, não querias dizer nada? Seja como for, é assim. Também é assim. Mas a força de uma tal paixão é imparável. 
Os sentimentos e as ideias só ganham continuidade quando se apoiam uns nos outros, na sua totalidade, têm de se orientar no mesmo sentido e arrastam-se uns aos outros. E o ser humano tenta por todos os meios, pela droga, pela ilusão, pela sugestão, pela crença, pela convicção, por vezes apenas recorrendo ao efeito simplificador da estupidez, criar um estado semelhante àquele. Acredita nas ideias, não por elas às vezes serem verdadeiras, mas porque tem de acreditar em alguma coisa. Porque tem de manter os afectos em ordem. Porque tem de tapar com alguma ilusão o buraco entre as paredes da vida, para não deixar que os seus sentimentos se espalhem ao vento. 
O caminho certo seria o de, em vez de se entregar a estados ilusórios, procurar pelo menos as condições da autêntica paixão. Mas, feitas as contas, embora o número de decisões que dependem do sentimento seja infinitamente superior ao daquelas que se podem tomar com a pura razão, e todos os acontecimentos decisivos para a humanidade nasçam da imaginação, só as questões da razão se mostram ordenadas de forma suprapessoal; para o resto, nunca se fez nada que mereça o nome de esforço comum ou que sugira sequer a consciência da sua desesperada necessidade."
Robert Musil, in 'O Homem sem Qualidades'

(Nota: O Homem sem Qualidades é um livro "eterno", digamos assim, porque ele não foi acabado. Tem quase 1.500 páginas, e assim como Musil não terminou de o escrever, eu não consigo terminar de o ler. Vou e volto, escolho um capítulo qualquer, marco página, escrevo no rodapé, encho-o de post-its com observações, e continua lá, interminável, talvez porque eu saiba que chegar à última página não chega ao fim. Uma vez, uma amiga me viu com ele à mão (Beatriz Ramos, jornalista, crítica literária) e me disse que ao menos poderia servir como peso para exercitar o braço... É fato, é pesado.


Apesar do tema escolhido para esse post, não é um livro de romance romântico. Fala de como os valores são deteriorados, na busca que o protagonista faz de atingir o sucesso, em 3 caminhos distintos, sem consegui-lo, apesar de suas qualidades, que, por não chegar ao seu intento, crê não possui-las. Mas no meu sistema de "não-leitura" da obra, chego a culpar um resíduo de romantismo que viva dentro de mim por desejar que Ulrich e Agathe, a sua irmã ("a duplicação assombreada de si mesmo na natureza oposta") não fossem irmãos, para que a relação sublime e mítica de uma mais belas, intensas e dolorosas histórias de amor da literatura universal que conheço, não fosse incestuosa. É uma obra que recomendo. Assim, recomendo... mas desde que você não goste de auto-ajuda, claro!)

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