quarta-feira, 28 de março de 2012

A SARDINHA E O CAVIAR



No alto de uma favela, uma casa de pau-a-pique com ar-condicionado. No interior, geladeira, TV de 29 polegadas, forno de micro-ondas, fogão, máquina de lavar louça. Tudo graças a um belo gato (ligação clandestina). A descrição da foto, estampada no O Globo de domingo, sintetiza como nenhuma outra, o Brasil de hoje. Alardeia progresso industrial e financeiro enquanto pisa na lama da corrupção e das faltas de saneamento básico e educação.

Se a casa é o País, a moradora é uma brasileira típica. Casada, dezoito anos, três filhos, a espera do quarto, ela exige todos os direitos e avisa não querer saber de obrigações. Ao ser informada que, com a pacificação irá ter que arcar com a conta de luz, a adolescente diz placidamente que não irá pagar. Que não tem dinheiro nem para a tarifa social. . Ela argumenta ser pobre, que tem o ar-condicionado por que faz muito calor e que o marido está desempregado e, por isto não vai pagar. Simples assim.

E esta população que acha que os gastos dela é problema dos outros não para de crescer e está em todas as camadas sociais. Se os pobres acham que têm todo o direito de terem o conforto da classe média sem pagar por ele, o ex-senador considera normalíssimo que a gente pague o plano de saúde dele e dos familiares e a cúpula do judiciário acredita piamente ser merecedora de toda a mordomia que desfruta. Além disto, o que dizer dos governadores que acham normalíssimo, em plena república, viverem em palácios com mais benesses do que os reis e rainhas das democracias européias? Por falar em majestades, não podemos esquecer que a família real (ops!), presidencial brasileira tem mordomias de fazer inveja às Casas de Windsor, de Grimaldi, de Bourbon e até ao presidente da, ainda, maior potência, Obama. Afinal, o amigo do “Cara” paga quando convida amigos para jantares particulares na Casa Branca. Obama também tem que abrir a carteira para bancar as escolas das filhas e as viagens de férias.

O problema é que aqui os bolsistas nobres e plebeus gastam como se não houvesse amanhã e apenas um grupo paga: a tão espezinhada e famigerada classe média, ou, como adoram os esquerdistas: os pequenos burgueses. Sim, pode se argumentar que a carga tributária brasileira é pesada e beira o achaque para todas as pessoas físicas e jurídicas, mas, proporcionalmente, ela verga mais a carteira do profissional liberal ou do assalariado razoavelmente pago.

Agora, vamos combinar que não precisa ser PHD em finanças nem MBA da FGV para saber que esta farra tem prazo de validade. Mais cedo ou mais tarde a lama da falta de uma educação e saúde de qualidade vai afogar mais gente e não haverá muitos salva-vidas disponíveis. As empresas de energia, gás e água não vão poder manter o subsídio das contas dos carentes pro muito tempo, até por que o percentual que é jogado na conta dos outros clientes tem um teto. Isto sem falar que o crédito fácil que equipa a casa-de-pau-a-pique também não pode se manter por muito tempo.

A grande questão sócio-política é que tanto o beneficiário de tantas bolsas quanto os príncipes e demais nobres não vão querer abrir mão das mordomias. E, ainda tem a cereja do bolo que é a multidão da “nova classe média”. E nesta briga, a primeira a se dar mal será a dona da casa que abriu este artigo. Eu só tenho um papilte do que virá depois: os nobres darão alguns anelzinhos, umas poucas pulseiras, e culparão os vilões de sempre, classe média tradicional, imprensa, fazendeiros e ricos em geral, pela derrocada geral. Além “dus americanus” é claro.

Mirtes Guimarães, @marcia1907, jornalista mireiroca que traduz o cotidiano para o blog. Arquivo:

2 comentários:

  1. E agora que há uma supremacia do pensamento de esquerda, virou palavrão contestar o "direito dos pobres". Até os políticos ficaram refém dos programas assistenciais.

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  2. Marcinha, quando acabar a "fluoxetina" do crédito fácil (e caríssimo), e essa falsa-classe-consumidora cair na real... porque não há lastro. Somos um país sem poupança. Sem lastro, o consumo é exatamente o que você descreveu. Ilusão, mantida, na verdade, pelo impostuinte.

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