sábado, 23 de junho de 2012

CAI A NOITE


Como esses santos homens que se apagam
    Sussurrando aos espíritos: "Que vão...",
Enquanto alguns dos amigos amargos
    Dizem: "Ainda respira." E outros: "Não."

Nos dissolvamos sem fazer ruído.
    Sem tempestades de ais, sem rios de pranto,
Fora profanação nossa ao ouvido
    Dos leigos descerrar todo este encanto.

O terremoto traz terror e morte
    E o que ele faz expõe a toda a gente,
Mas a trepidação do firmamento,
    Embora ainda maior, é inocente.

O amor desses amantes sublunares
    (Cuja alma é só sentidos) não resiste
A ausência, que transforma em singulares
    Os elementos em que ele consiste.

Mas a nós (por uma afeição tão alta,
    Que nem sabemos do que seja feita,
Interassegurado o pensamento)
    Mãos, olhos, lábios não nos fazem falta.

As duas almas, que são uma só,
    Embora eu deva ir, não sofrerão
Um rompimento, mas uma expansão,
    Como ouro reduzido a aéreo pó.

Se são duas, o são similarmente
    Às duas duras pernas do compasso:
Tua alma é a perna fixa, em aparente
    Inércia, mas se move a cada passo

Da outra, e se no centro quieta jaz,
    Quando se distancia aquela, essa
Se inclina atentamente e vai-lhe atrás,
    E se endireita quando ela regressa.

Assim serás para mim que pareço
    Como a outra perna obliquamente andar.
Tua firmeza faz-me, circular,
    Encontrar meu final em meu começo.

John Donne

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