terça-feira, 5 de junho de 2012

DIÁLOGO EM GRIS



Passar em revista, agora, o que você fez, rememorar os dias e as infinitas noites em que a inquietação crucifixa seu espírito numa terra cinza, numa hora eterna em que o corpo baixa a resistência e a mente não encontra saída. Olhar bem para os acontecimentos e tentar compreender quantos desses males inquietantes liberam dos loucos aquele seu louco sentimento de que é preciso estar, realizar, servir, resolver. E nada dá certo. E você, que sabe muito bem que impotência é desculpa esfarrapada, conclui a sua revista percebendo sua incompetência.

Sua terra cinza é um local sem dono. É seu estado de semiconsciência, mas é íntimo, pessoal e precioso, em que imagens detalhadas daqueles momentos passados em revista vagam por sua mente inquieta, obviamente irrigada por necessárias lágrimas. A terra cinza é partida por ventos poderosos e vozes que gritam alto numa língua que os mortais não conseguem falar. Parece alegre. Pode ser que seja. Pode ser uma festa de descobertas intrínsecas. A revista de suas tropas particulares que guerreiam seu épico pessoal encontra, entremeado, algum tempo de divertimentos, risos e canções, como se a indulgência divina os tivesse destinado a afastar a tristeza da vida humana. Da sua vida humana, reconhecidamente mortal e falivelmente incapaz de ser útil.

Nas horas cinzas da terra cinza, você fica a perguntar de que valem Dante, Schiller, Homero, José de Alencar, Machado de Assis, Rand, Rui Barbosa, Hannah Arend, Schopenhauer, Monteiro Lobato, Solzhenitsyn, Marcus Tullius Cicero? Diz-se que uma riqueza interior profunda e inteligência intensificada proporcionam a condição imediata para a sensibilidade elevada. Possuí-las faz com que você sinta mais a intensidade de seus tons de gris. São características que não se desprendem da faculdade do pensamento, justamente o que aprofunda o ciclo do cinza - e suas dores - dos fenômenos do mundo interior e exterior, com a força e o impulso próprios para combinações sempre variadas de dificuldades, sofrimentos, acrescentados dos momentos de cansaço. Tudo totalmente além do alcance da razão, à mercê da passionalidade. A sua terra cinza é a primeira a acusar-lhe que esse talvez seja o preço a pagar pela própria capacidade: descobrir-se incapaz. Alto preço. Afinal, tolos, fúteis, os superficiais, não sentem dor.

Os sons da terra cinza clamam o silêncio. Ao revistar suas vozes, você as encontra no silêncio compulsório, imposto, em conflito consigo porque não se aceita, nega sua essência para não ser silêncio. Silêncio assim afoga em terra morta. Levanta uma poeira desses mortos que povoa, que se ergue em tempestades, para cair novamente sobre essa terra sufocante. Impõe uma mão que prende e sustenta naquela cova. O silêncio tanta força tem. Cai em cima como uma horda de malfeitores. Debilita pela opressão, carrega uma tristeza inviolável e no fim, sem compadecimento, impõe que silenciar é, se não a única, a melhor (não) ação. 

Se no silêncio das palavras que calam perde-se o caminho para a palavra bendita, pura, límpida, sem disfarces nem enfeites, simples como só a verdade pode ser, o próprio silêncio é sufocado pelo grito ensurdecedor degenerado de valores que, injustamente dono absoluto do direito a ter voz, é o único que sobressai. É o grito que impõe o silêncio. Sua terra cinza mergulha no silêncio mais profundo ainda, único caminho para que você seja capaz de ouvir. Silêncio compartilhado com silêncio, lodo e orvalho, última estrada, noite eterna. Gris.


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