domingo, 10 de junho de 2012

É DOMINGO - O DESPOVOADO EM FLOR



Aonde - o despovoado, o povoadozinho palustre, em feio o mau sertão - onde podia haver assombros? Trouxe-se lá Drizilda, de nem quinze anos, que mais não corava: firme delindo-se, terminalvelmente, sozinha viúva. Descontado que a esquecessem, ela era quase bela; e alongavam-se-lhe os cabelos. A flor é só flor. A alegria de Deus anda vestida de amarguras. 
De deu em doendo, à desvalença, para no retiramento ficar sempre vivendo, desde desengano. O irmão matar-lhe o marido, irregrado, revelde, que a desdenhava. De não ter filhos? Estranhos culpando-a, soante o costume, e o povo de parentes: fadada ao mal, nefandada. Tanto vai a nada a flor, que um dia se despetala.
Mandaram-na e quis, furtadamente, para não encarar com ninguém, forrar-se a reprovas, dizques, piedade. Toda grande distância pode ser celeste. Trás a dobrada serranha, al último lugar do mundo, fim de som, do ido outro lado. Arroio-das-Antas - onde só restavam velhos, mais as sobejas secas velhinhas, tristilendas. Pois era assim que era, havendo muita realidade. Que faziam essas almas?
Rodearam-na - solertes, duvidando, diversas - até ao coaxar da primeira rã. Nem acavam o acervo de perguntas, entre outroras. Seus olhos punhas palavras e frases. viera-lhes a moça, primor, mais vaga e clara que um pensamento, tinham, à fria percepção, de tê-la em mal ou em bem.
Dali - recanto agarrado e custoso, sem aconteceres - homens e mulheres cedo saíam, para tamanho longe; e, aquela, chegava? Tão não sabida nem possível, o comum não a minguando: como todo ser, coagido a calar-se, comove.
Sós, após, disputavam ainda, a bisbilhar, em roda, as candeias acesas. nenhuma delas ganhara da vida jamais o mundo - que ignoravam que queriam - feito romance, outra maneira de alma. O que a gente esperava era a noite. Mas a velhice era-lhes portentosa lanterna, arrulhavam ao Espírito Santo.


Senão que, uma, avó Edmunda, sob mínima voz, abençoou-a: "- Meu cravinho branco..." Outra por ela puniu, afetando-se áspera: "- Gente invencioneira!" Suspiraram mor, em giro doce, enfim, entreentendidas, aguadas as vistas, com uma ternura que era quase uma saudade.
João Guimarães Rosa, in "Arroio das Antas" - Tutameia.

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