sexta-feira, 14 de setembro de 2012

HAY QUE PATRULHAR...


                


The Newsroom é, sem dúvida alguma, a série mais inteligente de 2012. Se, em West Wing o autor, Aaron Sorkin, nos fazia pensar e debater política de dentro da Casa Branca, nesta série o palco é os bastidores de um telejornal que está mais para CNN do que para Foxnews. Nele, os fatos mais marcantes de 2011 são apresentados e debatidos de vários pontos de vista. Esta semana o bate boca entre o âncora gente-boa e republicano (mas que às vezes parece ter um pé no que se convencionou chamar de esquerda nova iorquina) Will McAvoy e um professor universitário negro gay foi de aplaudir de pé!

Will vai com tudo em cima do professor por ele apoiar Rick Santorum. Afinal, o então candidato a candidato republicano tinha dado declarações homofóbicas. Uma delas foi que não se sentiria bem tendo um casal de gay como vizinho. Will, inconformado com o apoio, pergunta claramente se o professor se sentira bem ao ouvir isto. E com perguntas cada vez mais agressivas, tipo, como o professor aceita ser chamado de desprezível pelo candidato, o âncora o leva a perder o controle. Com um basta, o professor manda Will calar a boca, diz saber muito bem as posições do candidato, e que mesmo assim o apóia por ele ser contra o aborto. Acrescenta rudemente que não aceita que Will o paternalize. No final, deixa bem claro o que pensa: “Eu não me defino pela minha orientação sexual ou pela minha raça. E se isto não encaixa na visão estreita que você tem sobre mim, problema seu. Eu não dou a mínima.” Envergonhado, Will acaba pedindo desculpas.

Na mesma hora me lembrei de vários “Wills” que encontramos no cotidiano real e no virtual. Quantas vezes ouvimos ou lemos esquerdistas que se dizem democratas agindo como Will? Pessoas, talvez não com tanta boa intenção como o âncora, querendo determinar como você deve se manifestar ideologicamente tomando por base apenas seu gênero, opção sexual ou cor da pele. Para eles, se sou mulher tenho que ser a favor do aborto, das cotas femininas e do feminismo. Se sou jornalista sindicalizada tenho que ser a favor da democratização da mídia. Se sou brasileira tenho que ser contra os Estados Unidos e a favor de Cuba e dos bolivarianos.

Aqui o radicalismo de esquerda começa a flertar aberta e perigosamente com o fanatismo. Sim, espero estar errada, mas vejo que a cada dia se tenta alimentar antagonismo. Agora a questão não é mais só rico versus pobre. Aumentou e muito o patrulhamento, dentre outros, aos negros anti-petistas, aos gays não ideológicos e às mulheres não ativistas. Todos são cobrados acintosamente pelas redes sociais por pessoas que, a gente percebe não os conhecem. “Admiro você negro ser tucano”, “um gay como você não deveria ser a favor de um político como sicrano” ou, “como mulher você deveria ser a primeira a apoiar tal movimento” são frases que com algumas variações cada um de nós já leu. E todas escritas por aqueles que juram defender os seus direitos. O problema que esquecem ou nem se importam se a gente deu ou não procuração para eles. Eu já adianto que não deleguei a ninguém o direito de falar em meu nome. Aliás, dei sim à apenas três pessoas: o vereador, o deputado estadual e o deputado federal que elegi. Só eles podem dizer e assim mesmo de vez em quando ainda mando e-mail reclamando (dancei em senador). No mais, como o professor, não admito que ninguém me paternalize ou reduza a minha cidadania à minha profissão, ao meu gênero ou a qualquer outra visão estreita que se tenha de mim. Chega de patrulhamento!

Mirtes Guimarães, @marcia1907, jornalista mireiroca que traduz o cotidiano para o blog.

8 comentários:

  1. Apenas duas coisas: dona Márcia, nunca mais tarde tanto a escrever suas crônicas do cotidiano no Veneno Veludo. Morro do coração! E surpreenda-se: Will é republicano, ponto final. Ou não. Pergunte-me como...rsrs.

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  2. Eu fico com o, "ou não"... rs
    Acho que ainda não ficou bem claro isto. NO episódio se fala que ele trabalhou para o partido, uns ficam chocados, outros dizem que foi só trabalho, a ex-namorada afirma que ele é republicano e a coisa fica no ar. Mas, para mim ele não deixa de ser a versão hetero do Anderson Cooper. rs
    E juro que vou voltar a ativa.
    Ah, valeu ter procurado a foto da cena dos 2.

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  3. Marcia e Regina: Will e um republicano aeciano. Faz tanto bem ao partido republicano quanto Paris Hilton faz a oposicao.

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    1. Doc, o Will é um republicano tão radical que aeciou? Bem, assisti até o 8, não sei qual episódio passa no Brasil porque no flat onde estou exilada, depois do portal de Finge, não tem HBO. Mas o que interpretei até agora é que ele é bem radical, porém, o jornalismo da série converge para o centro, como postura de "isenção". O Will é que não acertou a mão, ainda. Pulou de um radicalismo para o outro sem o meio-termo. E isto também não é uma opinião minha já formada. É mais uma suposição. Ainda vou rever com vagar, tenho assistido meio cansadona, às madrugadas, largada no vazio (drama mode on de 50 dias fora de casa). Jocas!

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  4. Assistiu mais do que eu, Regina. No domingo passará o episódio 7. Portanto só se falou até agora, an passant, sobre a filiação dele. Se for mesmo republicano eu vou ter que concordar com o Doc, de que ele é um Aécio americano... (rs)

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  5. Aqui ja acabou a primeira temporada. Ele e republicano sim, dito por ele mesmo diversas vezes. Ta passando em ingles ou foi traduzido?
    E nao se esquecam que a HBO e anti republicana desde criancinha.

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  6. Está passando em inglês com legendas. O autor da série é democrata desde criancinha, mas sempre faz séries "isentas" e inteligentes, como mencionei no texto.

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    1. Eu ganhei os episódios de uma colega, também com legendas. Não vi nenhum na TV ainda. Mas a série é, até agora, espetacular. Subiu ao topo da minha preferência das temporadas atuais, assim como Homeland. Eu comecei meio desconfiada, do tipo "depois de The West Wing não seria possível"., etc. Mas foi, pelo visto. A sensação, é de frustração. Aqui não há nada sequer parecido, e muito menos ainda em redações tão à esquerda, uma vez que o jornalista esquerdista não pode comungar com a ética. É ilógico, por irreal. A "newsroon" é bem democrata, e ainda assim... Bem, falamos de ficção, claro. No fim das contas, estou me divertindo, quase como quando assistia à The West.

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