quarta-feira, 5 de setembro de 2012

OPOSIÇÃO, ELEIÇÃO E A NAVALHA DE OCCAM


A grande parcela de cidadãos que votou contra o PT e tudo o que seu desgoverno representa, gritou, grita e ainda espera, desde o resultado das eleições de 2002, pela oposição. Eu, inclusive. Mas já afirmei, também, meio na contramão de todos (sempre é dia de tirar minhas velhas certezas da gaveta) que durante 3 anos e meio, com um interstício de 6 meses no meio desses três entre uma eleição presidencial e outra - a eleição municipal -  quem delineia se há oposição ou não há o instrumento democrático de ser contrário ao status quo é o Parlamento. Isso não exclui a responsabilidade de outros líderes político-partidários que não estejam no gozo de algum mandato, mas que tenham um capital eleitoral ou moral para  lhes dar respaldo, ao tempo em que deles se espera atitude.  

Não se trata da síndrome de Pollyanna, que desse mal nunca sofri, mas apenas de esperar aquilo que a convivência com o Congresso Nacional por 18 anos me ensinou: o tempo que eles, os políticos, têm. É um diferente do nosso, os seus próprios eleitores, infelizmente, mas é assim que é. Nossa "oposição", nos entretantos dessa vida, tem por sua vez um tempo muito mais diferente ainda. Metatempo, metarreal. Ocorre que tempo da oposição, para a nossa desgraça, é idêntico ao do desgoverno: não fazer nada para não errar porque tem certeza que não vai funcionar e que o resultado lhe será sempre desfavorável. O tamanho do absurdo disso é que, quão mais inerte, inepto e inoperante um governo, mais atuante DEVERIA ser a sua oposição, pelo bem da sociedade. Não é o que temos para hoje. Fim do tempo! 

Pois bem. Quanto mais o tempo surreal de uma oposição que não é perdurar por 3 anos e meio, mais ainda torna-se estreito o tempo do outro meio ano, os seis meses imediatamente anteriores à qualquer eleição. Daí vejo como nossos nobres e ilustres representantes desconhecem fundamentos básicos que os ajudariam muito a tomar a decisão de agir, e a agir. Não é de fórmula mágica de marqueteiro que falo, mas da "Navalha de Occam", o princípio lógico do frade franciscano William de Ockham que desde o século XIV defende que a natureza é por si mesma econômica, optando invariavelmente pelo caminho mais simples. Trocando em miúdos, não se usam soluções elaboradas quando as simples servem. Isso se aplica a quase tudo - inclusive na política:se a função é fazer oposição, então qual a necessidade de complicar e adjetivá-la com penduricalhos como "propositiva" e etc? Faça-se o simples, e estará cumprindo bem o seu papel.

Disse o senador Aloysio Nunes Ferreira, certa feita, que oposição “existe para reclamar, ou fazer ecoar a voz daqueles que reclamam”. Mais simples e óbvio que isso, não é necessário. Mas alto lá: cadê quem faz isso? Cadê quem fez isso? Já não parece claro que a oposição recusa-se peremptoriamente em render-se à lógica e à racionalidade? O preço de uma democracia imatura prolongar-se para além das idades da maturidade, abrindo mão do direito de se opor e da obrigação de fazê-lo, é impagável, mas a fatura é cobrada dos políticos que deveriam fazer seu papel. Se não é para se opor, para falsear, para acovardar-se, por que "votarei" novamente? A curva de baixa de José Serra em São Paulo, indicada por pesquisas, é a mais pura expressão prática do princípio do frade franciscano ali acima.  O princípio que a oposição recusou-se a observar, volta-se em si mesmo, contra ela. É simples. Não tem porquê votar em quem não fez o simples... A oposição desconhece deliberadamente a Navalha de Occam. E eu não gosto disso. O caminho para o totalitarismo sedimenta-se bem aí. 

(Em fevereiro de 2011 publiquei essa mesma reflexão baseada na Navalha de Occam acerca do novo Congresso Nacional que iniciaria seus trabalhos. Reaproveitei o princípio franciscano para o quadro geral que previa - hoje vejo - do desempenho da oposição nas eleições municipais em geral, e na de São Paulo em particular. Mas tão particular que só mereceu duas linhas do texto. Porque do óbvio, todos estamos saturados, e usei o fundamento de Occam: fui no simples, mesmo, ou seja: #prontofudeu)

5 comentários:

  1. Mais claro que isso Velvet, só eu saindo despida em plena Esplanada dos Ministérios, com esse bronze que estou das praias de BSB!(Cômico se não fosse trágico!) "Entia non sunt multiplicanda praeter necessitatem" ou simplismente "Se em tudo o mais forem idênticas as várias explicações de um fenómeno, a mais simples é a melhor" — William de Ockham

    Espero sinceramente que nós - oposição - não herdemos esse nome no calor de 04 meses de eleições, mais continuemos firmes, ecoando nossa voz e reclamando do desgoverno da "astuta" presidente destepaiz!

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  2. Quando preciso encerrar uma daquelas intermináveis ponderações com meus filhos de 10 e 11 anos, costumo usar os termos: "Chegou. Faz e pronto. Simples assim".
    Esse seu artigo amplifica a assertiva.
    Oposição é prá se opor. Faz e pronto. Simples assim.

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  3. Sinto saudade do futuro que sonhei quando era criança - Igor

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  4. Desde 2002, a oposição, representada principalmente pelo PSDB e DEM, se viu refém de seus próprios erros, das suas próprias mazelas ....
    Companheiro de partido BOM é aquele companheiro que não atrapalha, não coloca o partido em situação delicada, os RUINS devem ser afastados logo ....
    O PSDB permitiu que Lulla continuasse porque sabia que o Azeredo também tinha o seu mensalão, aliás o primeiro de que se tem notícia ....
    Depois veio o mensalão do DEM, com o hipócrita do Arruda, um ocultista ávido por poder e dinheiro ....
    Chegou-se ao cúmulo de afirmar, na época da CPI dos Correios e depois, no Mensalão, que era melhor deixar o Lulla sangrar ....
    Estavam certos de que em 2006 Lulla seria derrotado, o que se mostrou ser um grande engano, um erro histórico de estratégia partidária ....
    Mas a gramde verdade é que não há oposição pujante por causa de todas essas mazelas do PSDB e do DEM ....
    Uma exceção, faço questão absoluta de citar, o Senador Álvaro Dias, que vem fazendo oposição a esse desgoverno da idade das trevas, diga-se de passagem com muito louvor ....
    A ele, Senador Álvaro Dias, devo o meu respeito e o meu voto em 2014 !!!!
    É isso, simples assim !!!!
    Cheers !!!!

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  5. Quem se diz "oposição propositiva" ou bem é um ingênuo politicamente analfabeto ou bem é um adesista dissimulado. Tertium non datur, para ficar no clima do post... rsrs

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